AUS (Valdivia) - Entre o popular e o erudito: Casas de férias em Colares (Sintra- Portugal) 1940-1974: Apropriação moderna de uma ideologia secular
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ISSN 0718-7262 versión on-line

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  AUS (Valdivia) n.17 Valdivia 2015




DOI:10.4206/aus.2015.n17-08

ARTÍCULO

 

Entre o popular e o erudito. Casas de férias em Colares (Sintra- Portugal) 1940-1974: Apropriação moderna de uma ideologia secular1

Between what is popular and erudition. Vacation houses in Colares (Sintra- Portugal) 1940-1974: Modern appropriation of a secular ideology

 

João Cardim

Arquitecto, doutorando em Arquitectura dos
Territórios Metropolitanos Contemporâneos,
ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Portugal.
caardim@gmail.com


RESUMEN/ Esta investigação partiu do desejo de melhor compreender uma realidade territorial e as suas características intrínsecas, justificadoras de um elevado grau de atractividade, constante ao longo dos últimos seis sáculos. A zona em estudo, centrada em Colares (importante zona de veraneio dos arredores de Lisboa), á determinantemente marcada - na sua paisagem, devir histórico, evolução social e especificidade cultural - por pressupostos conceptas e propósitos de oposição cidade/ campo, natural/ artificial e otium/ negotium, traduzidos não só em termos de contemplação e idealização "poéticas" mas, tambám, de usufruto e materialização arquitectónica. Partindo das considerações de James Ackerman (1995) sobre a villa suas primordiais características e a própria transversalidade temporal deste conceito tipológico e ideológico, procuramos revelar e analisar uma (inédita) produção arquitectónica moderna (1940-1974), correspondente a algumas dezenas de casas de veraneio e de fim-de-semana, notórias pelo seu especial interesse arquitectónico, pelos profissionais que as projectaram e pelo cruzamento de referências internacionais e locais. ABSTRACT/ This research stems from the wish to better understand a territorial reality and its inherent characteristics, which justifies a high level of constant activity during the past six centuries. The study area, focused on Colares (a major vacation area in the vicinities of Lisbon), is specifically marked -in its landscape, historical development, social evolution and cultural specificities- by conceptual conjectures and the oppositions between city/ countryside, natural/ artificial and otium/ negotium, translated not only in terms of poetical contemplation and idealizations, but also of usufruct and architectonic materialization. Stemming from the considerations of James Ackerman (1 995) about the villa its main features and the inherent time cross-cutting nature of this typological and ideological concept, we aim at revealing and analyzing an (unprecedented) modern architectonic production (1940-1974), corresponding to a dozen vacation and weekend houses, notorious due to their special architectonic interest, the professionals who projected them and their international and local cross-references.

Palabras clave/ Casas de férias; arquitectura moderna; Colares (Sintra - Portugal); 1940-1974.
Keywords/ Vacation homes, modern architecture;
Colares (Sintra - Portugal); 1940-1974.


 

INTRODUÇÃO. O presente artigo tem como finalidade apresentar resumidamente os resultados, ainda inéditos, de uma investigação mais ampia cujo objectivo - revelar e analisar uma produção arquitectónica moderna de excepção, correspondente a algumas dezenas de casas de veraneio e de fim-de-semana (de um universo de cerca de 1.500) construidas entre 1940 e 1974 - carecia de um mergulho temporal relativamente longo que procurasse contextualizar as caracteristicas essenciais da ideologia da villa de modo a verificar a sua manifestação no periodo moderno.

Numa primeira parte procuramos analisar o território em estudo - centrado em Colares, mas cujos limites relevantes sáo mais abrangentes, incluindo a celebrada Vila de Sintra e a serra com o mesmo nome - quanto às razões de base da sua atractividade inicial e quanto à evolução dos diversos aspectos conducentes à sua transformação, em épocas já recentes, num célebre e privilegiado lugar de vilegiatura e de consequente experimentação arquitectónica.

Numa segunda parte centrámo-nos na região de Colares, para a qual se deslocou desde o inicio e ao longo do século passado o eixo "turistico-residencial" de Sintra, em grande parte devido ao desenvolvimento das actividades de cariz balnear e dos vários contextos lúdicos a elas ligados.

Optámos, então, por examinar em detalhe os projectos de arquitectura doméstica de veraneio ai concretizados entre 1940 e 1974, pois foi durante esse decisivo periodo, de progressiva e incontornável mudanca social, económica e cultural, que ai assistimos à construção de inúmeras casas de férias verdadeiramente notáveis, na sua maior parte tendo como autores os mais destacados representantes das várias gerações de arquitectos dessa época e, ainda, exemplarmente representativas das diversas correntes e discussões que então dinamizaram e transformaram a prática e o pensamento arquitectónicos em Portugal.

 

Imagem 1. "Azenhas do Mar", fotografía do final do século XIX.
(fonte: Gaspar e Gaspar, 2010).

 

Imagem 2. Duarte dArmas, "Cintra tirado natural da parte do Sull, 1507", mostrando o
Pa
ço Real, a paisagem da serra e o mar ao fundo (fonte: Cardim Ribeiro, 1996).

 

A CULTURA DA VILLA NA REGIÀO DE SINTRA/COLARES: PERCURSO HISTORICO. Para melhor compreender o fenómeno das casas de férias construidas na zona de Colares em meados do século XX importa perceber que esta produção resultou da relação entre uma elite burguesa - e o seu desejo de possuir uma segunda morada que lhe concretizasse as ambições de "sonho" e de lazer, evidenciando ainda o seu estatuto social e poder económico - e uma população rural que vivia do campo, um campo real completamente diferente do cenário "rústico" e "pitoresco" idealizado pelo homem citadino. Dois factores conjugados revelaram-se fundamentais, em Colares, quanto ao grau de atractividade como zona de eleição para habitação sazonal no século XX: (a) o de corresponder inteiramente ao conceito de "paisagem idilica" na qual se podem gozar momentos dedicados ao lazer e à contemplação da natureza, numa clara oposição à agitação e afazeres da vida urbana; e (b) a circunstancia paradoxal inerente à existència desta tipologia de habitação, sobretudo na sua forma actual herdada da "democratização da villa" ocorrida no século XIX: a sua condição de satélite da cidade (neste caso, Lisboa) - «a ideologia que enaltece o campo e despreza a cidade é em parte uma resposta paradoxal à dependência do estilo de vida no campo [associado à villa] dos recursos económicos da cidade» (Ackerman, 1995: 12). Embora o presente estudo se centre na arquitectura doméstica de veraneio realizada em Colares nos anos de chegada e afirmação da arquitectura moderna em Portugal - realidade arquitectónica que, nas palavras de Ana Tostões (2000: 4546), constituiu, «pelo espaço de liberdade projectual que o seu programa pressupõe, (...) magníficos laboratórios de uma arquitectura de autor (...) [representando], de modo singular, a produção erudita [em torno] da década de [19]50, acompanhando o processo de afirmação, questionamento e contestação da ortodoxia do Movimento Moderno» -, cremos oportuno esbocar as várias etapas anteriores que, também nesta região, constituem antecedentes culturais desta atracção "urbana" pelo campo. Tal heranca, larga no tempo, é certamente incontornável para a percepção da villa enquanto fenómeno civilizacional, o qual, na sua aparente simplicidade, contém aspirações vivenciais - de reclusáo individual, procura de descanso e lazer, contacto com a natureza, etc. - tão antigas como a própria organização das comunidades em grandes aglomerados urbanos.

Apesar de se conhecerem algumas villae romanas na vertente setentrional da Serra de Sintra - sendo a mais notória de Santo André de Almoçãgeme (aparentemente fundada na segunda metade do século I d.C. e com ocupação até a Época Islámica), a maioria dos "habitats" similares espalha-se, aqui, pelo largo planalto que se dilata para Norte da serra. São marcantes os traeos definidores da paisagem envolvente, quer pelas suas condições geomorfológicas excepcionais, quer pela proximidade a uma importante e cosmopolita cidade portuária, Olisipo (Lisboa). A estas singularidades pragmáticas junta-se um não menos importante elemento, o carácter simbólico-religioso que contribuiu decisivamente para a forte personalização do território. Este carácter corresponde a um processo de "mitificação" que, embora de origem pré-romana, nos chega principalmente através dos autores clássicos - nomeadamente das alusóes de Estrabão, Plínio "O Velho", Ptolomeu, Varráo e Columela. De facto, para as elites romanas, o litoral poente da Península Hispánica representava, na sua concepção do mundo - de matriz grega -, o derradeiro extremo ocidental, onde o Sol "morria" quotidianamente no Oceano e para onde confluíram, gradualmente e ao longo da dilatação das terras conhecidas e, mais tarde, do próprio Império, uma grande parte dos antigos mitos e lendas relacionados com o desconhecido e com o exótico (Cardim Ribeiro, 2011).

Também a Época Islâmica (713-1147) é fértil em descrições lisonjeiras que vincam o carácter "maravilhoso" da região e lhe salientam a amenidade, especialmente quando elogiam as qualidades da vida no campo em detrimento do bulico da cidade. Este período, além de constituir um elo entre cultura clàssica e medieval, representa também a fase durante a qual Sintra e Colares emergem como povoados de primeira importância, desenvolvendo-se em simultâneo e em simbiose (Caetano, 2000). No entanto, será apenas com Dom João I (reinado 1385-1433) que o conjunto de edificios remanescente do velho burgo islâmico de Sintra se transforma num imponente Paço Real, marcando o início da principal morada de veraneio da Corte até finais do século XVI - eleita, segundo testemunho do rei Dom Duarte, devido à amenidade do clima, qualidade e disponibilidade de águas e provisões, proximidade da capital, boas zonas de caçã, e ainda ao panorama que se podia admirar do palácio (Vieira da Silva, 1996: 45). Durante o Renascimento, este paco exponencia o seu papel como principal edificação régia de veraneio, conferindo a Sintra e à sua regiao - com predominância da pròpria serra e do vale de Colares - um significado e função à época únicos em Portugal. De forma que, a partir de então, não é já apenas o rei - e a corte que o acompanha e que com ele reside na mesma morada áulica - que vem para Sintra em "segunda residència" estival, mas também os mais importantes elementos da nobreza, assim como artistas, poetas e eruditos. Mais tarde, apesar da utilização do Paço de Sintra pela Casa Real ter diminuído abruptamente com a Dinastia Filipina (15801640) e, de novo, ao longo de quase todo o século XVIII - época em que preponderam Queluz e Mafra -, o movimento de mstalação de mansões nobres de "veraneio" ao gosto clàssico entre Sintra e Colares não sofre hiatos e prolonga-se ininterruptamente até inicios de Oitocentos. É último século que, de certa forma, Sintra e Colares tomam rumos opostos. Enquanto Sintra, com o célebre Palàcio da Pena (1842-1854) e as suas decorrências románticas (que vêm até ao inicio do século XX), ganha um crescente cariz mundano - que a linha ferroviària, ligando a Lisboa desde 1877, vem facilitar -, Colares reforçã por contraste o seu carácter de locus amoenus refúgio "anti-urbano" de veraneio e de otlum criativo por excelência -, atraindo um pequeno grupo pioneiro de intelectuais e artistas, entre os quais se destaca Alfredo Keil (1850-1907), músico e pintor.

 

Imagen 3. João Cristino da Silva, "Cinco Artistas em Sintra", 1855
(fonte: http://www.museuartecontemporanea.pt/ArtistPieces/view/33/artist).

 

Imagen 4. Alfredo Keil, "Banzao" (1882) (fonte: Rodrigues, 2001).

 

Temos pois, a partir de agora, duas "Sintras": a dos palácios, dos aristocratas e burgueses, mais "citadina" e movimentada; e a "tradicional", bucólica, rústica e litoral, sem exuberantes floras exóticas, luxos, ou diversões nocturnas. É esta segunda, a de Colares, que ora preserva os idilicos e prodigiosos encantos que ao longo dos tempos tinham feito a celebridade da Sintra pré-romântica. É também aqui que os artistas e intelectuais procuram o "popular", contactando mais de perto com o povo, os saloios - na continuidade de um harmonioso convivio alguns anos antes espelhado ainda em plena serra no famoso quadro de Joao Cristino da Silva (1829-1877), "Cinco Artistas em Sintra" (1855).

O desenvolvimento da região de Colares enquanto zona "moderna" de veraneio inclui, de modo geral, cinco fases sequenciais. A primeira abrange o periodo desde 1884-88 -momentos iniciais que assistiram à abertura da estrada entre o Banzão e as Azenhas-do-Mar, bem como à construção das primeiras edificações na referida estância balnear - até 1904, ano da inauguração da linha do carro-eléctrico Sintra-Praia. É esta a época dos "pioneiros", como Keil, e corresponde à construção de alguns chalets (denominados "villas") junto à povoação de Colares, bem como às primeiras casas na Praia-das-Maçãs. A segunda fase inicia-se, claramente, em 1904, com a referida inauguração da linha férrea - que proporciona ainda, muito precocemente, a possibilidade da distribuição privada de energia eléctrica -, e prolonga-se, sensivelmente, até meados dos anos 1940. Assistimos, neste periodo, a uma primeira "democratização" desta zona de lazer, que se vira cada vez mais para uma vivência de indole balnear.

É à terceira fase que correspondem os casos de estudo analisados. Estende-se esta desde finais da primeira metade do século XX até à Revolução de 1974 e caracterizase, sobretudo, pela assinalável amplitude e diversidade que ora ganha aqui o fenómeno das "segundas residèncias", na presençã cada vez maior de uma burguesia lisboeta com alguns recursos económicos e um certo grau de cultura e gosto estético, de profissionais liberais, mas também - e este factor em continuidade - de artistas, arquitectos, músicos, literatos, etc..

Caracteriza-se, de igual modo, sobretudo a partir de meados dos anos 1950, por uma progressiva diminuição de algumas das costumeiras diversões "populares" e, em contraste, por um igualmente progressivo crescendo das actividades intrinsecamente balneares e das vivências sociais, inclusive nocturnas, que vèm a encontrar a sua tradução funcional - e arquitectónica - em grandes complexos de piscinas, algumas unidades hoteleiras e colònias de férias. Conforme é consensual, a Revolução de 1974 representa, a vàrios títulos, uma ruptura na vida e nos hábitos portugueses - sem excepção dos temas e realidades em anàlise. Não sendo este o lugar oportuno para desenvolver esta mais recente época, alheia à periodização escolhida para o presente estudo, limitar-nos-emos a sugerir que a mesma possua duas fases distintas, resumíveis também em duas palavras: abandono - devido não sò ao impacto da Revolução (muitas moradias ficaram desabitadas, até no Verão, e algumas foram ocupadas) mas, também, à "descoberta" do Algarve - no Sul de Portugal - enquanto zona preferencial para férias; e recuperação - já a partir de meados dos anos 198G, com a retoma do ritmo de construção pré-197G e com um maior desenvolvimento dos núcleos de habitação permanente, em especial nos anos 199G. Assiste-se, já no século XXI, à à crescente transformação por parte de novas gerações em "primeira residência" de muitas das antigas casas de veraneio - atitude ademais proporcionada pela banalização do transporte automóvel e pela progressiva melhoria dos acessos viários -, factor que altera em grande medida as caracteristicas da região, e necessitando, pois, de um estudo autónomo.

 

Imagen 5. Keil do Amara/, Casa de Fim-de-Semana no "Bairro dos Arduitectos", Rodízio,
proj. 1940 (fontes: Ardulvo da Cámara Municipal de Sintra
[desenhos]; Noguelra, 1943 [fotografías]).

 

Imagem 6. Francisco ConceiQào Si/va, "Casa Rodrigues", na Avenida do Atlántico, entre
o Banz
ão e o Rodízio, proj. 19-58. (fontes: Arduivo da Cámara Municipa/ de Sintra
[desenhos]; fotografía do autor).

 

CASAS DE FÉRIAS EM COLARES (1940-1974). TRÈS PERÍODOS: RÚSTICO, MODERNO, REVISIONISTA. Os exemplos escolhidos para este artigo -de entre toda a produção de arquitectura doméstica de veraneio inventariada -permitem, devido às suas caracteristicas diferenciadoras, identificar três periodos ou modos-de-fazer distintos - mas parcialmente sobrepostos -, concernentes ao relacionamento com o território e com o próprio fenómeno do veraneio. No primeiro - que denominámos de "Rústico do Rodizio" (a partir do topónimo da zona ora construida) - assistimos a certo desejo de vida simples que tem como cenário uma arquitectura minima e racional, que se une ao gosto pelo pitoresco e que evoca um certo imaginário "popular". Francisco Keil do Amaral (191G-197S), neto do referido "pioneiro" da ocupação urbana da Praia-das-Maçãs, é uma das principais figuras deste periodo, tendo projectado duas casas de fim-de-semana no célebre "Bairro dos Arquitectos" - onde também constroem Raul Tojal (19GG-1969), Adelino Nunes (19G3-1948) e Faria da Costa (19G6-1971) -, cuja primeira (194G) é um exemplo notável de conjugação da racionalidade e simplicidade modernas - que Keil do Amaral aprofunda nas suas viagens à Holanda - com sistemas construtivos locais e com uma "imagem tradicional" de uma marcante singeleza, da qual faz parte também a integração harmoniosa com o seu entorno. Como nos diz Raul Hestnes Ferreira (1992, p. 71), estamos perante «um edificio que quase não se vê, de base rectangular [c. 10x5m], coberto por um telhado de uma água, e três janelas frontais, com portadas». A aparência exterior esconde um interior onde tudo é aproveitado ao máximo -desde a transformação de um recanto da sala comum em espaco para dormir, até à utilização de uma cama suspensa e à presenca de um único mòvel de arrumação na sala. De salientar o recurso - aqui indispensável - à sala comum, cuja "descoberta" abre novas perspectivas para o uso racional do espaço.

Num segundo período, uma nova geração pretendeu introduzir, de maneira mais incisiva, oo modo de vida moderno, quer por via "mediterrânica", quer por via mais "internacionalista". A primeira referencia-se em maior ou menor grau nas obras de Le Corbusier do começo dos anos 1930, como a Casa Errázuriz (Chile, 1930, não realizada) ou a casa de veraneio em Les Mathes (Franca, 1935), em conjunto com exemplos mais recentes provindos em especial das obras de Oscar Niemeyer ou de J. A. Coderch. Na região em análise, a Casa Rodrigues (1958), de Francisco Conceição Silva (1922-1982), corresponde entáo a este processo de "mediterranização" do moderno, a que o arquitecto recorre também em três moradias do Guincho (Cascais) projectadas no mesmo ano (e construidas entre 1959 e 1965), as quais igualmente combinam «uma estrutura espacial aberta e fluida, própria da arquitectura moderna, com a recuperação da intimidade, pelo agenciamento em torno de pátios recolhidos, caracteristicos do habitar mediterranico [e que constituem os elementos geradores da planta]» (Leite: 2007: 62).

Em paralelo com este processo assistimos também à importação de modelos mais internacionalistas, sobretudo através da acção de Peter Neufert (1925-1999), filho de Ernst Neufert, autor do famoso manual de arquitectura e arquitecto com fortes ligações à Bauhaus e a Walter Gropius. Alguns projectos para clientes alemáes em Colares tèm esta procedència, com destaque para a Casa Sylvia (1962) -projectada por Peter Neufert com apoio local de Nuno San Payo (1926-2014) -, onde impera o sentido racionalista, tanto na funcionalidade como na estética, e os pormenores caracteristicos de tal abordagem, como os dispositivos de sombreamento e de iluminação natural, armários embutidos, portas de correr que aumentam ou diminuem espacos, o elemento da lareira como divisória entre zona de estar e zona de refeições, e uma disposição geral plena de aproveitamento racional do espaco. Conforme referido na revista Binário (n.° 186, Marco de 1974), a moradia de Neufert pontua a paisagem como um marco - estruturalmente ambicioso -, constituindo um dos poucos exemplos analisados onde é enunciada, com mais clareza, a questão de a villa ter como função não só "ver" a paisagem mas também "ser vista" integrada nela.

Num terceiro momento, quase em paralelo com o segundo, surge o "revisionismo" das propostas mais internacionalistas - por inspiração do Inquérito a Arquitectura Regional Portuguesa (1955-1961) ou por via americana, nórdica ou italiana -, que se manifesta numa adaptação a topografía, na utilização de materiais e técnicas construtivas mais tradicionais em conjugação com materiais e sistemas modernos, e numa maior inventividade espacial em planta e em corte. Os exemplos desta fase sáo numerosos e incluem, por exemplo, a já algo referenciada Casa Metello (1958-1959) de Nuno Teotónio Pereira (n. 1922) e Nuno Portas (n. 1934), mas talvez seja justo destacar aqui um projecto, até agora inédito, do arquitecto Justino Morais (1928-2011) - o Abrigo da Nora (1964) -, que recupera as dimensões minimas mais congeniais ao periodo de férias, onde a reunião da familia não exige grande desafogo interior, antes uma meditada organização espacial e uma ampla relação com o exterior.

 

Imagem 7. Peter Neufert, "Casa Sylvia", no Alto do Rodízio, proj. 1962 (fontes: Arquivo
da C
êmara Municipal de Sintra [desenhos]; "Casa na Praia das Maçãs", in Binário 186,
Marco 1974 [fotografías]).

 

Imagem 8. Justino Morais, "Abrigo da Nora", Vinagre (Colares), proj. 1964.
(fontes: Arduivo da Cámara Municipal de Sintra [desenhos]; fotografías do autor).

 

Imagem 9. Justino Moráis, "Abrigo da Nora", Vinagre (Colares), proj. 1964.
(fonte: Arquivo Familia Morais).

 

Neste projecto todo o investimento é canalizado para a concentração das actividades domésticas no menor espaco possivel. A utilização de ângulos de 45° na composição denota a influência internacional exercida neste arquitecto, numa época em que se procuravam alternativas as usuais divisões rectilíneas a fim de permitir uma maior fluidez espacial. Com efeito, a utilização de redes como suporte geométrico para a concepção de um edifício está presente pelo menos desde as experiéncias de Frank Lloyd Wright nos anos 1930 - patente, por exemplo, na Casa Hanna (Califórnia, 1935-37) - e irá generalizarse nos anos 1960 em Portugal. No abrigo de Morais este tipo de estruturação permite-lhe - ao mesmo tempo que dota as curtas permanências aí passadas da possibilidade de uma riqueza vivencial inusitada - a subtil resolução de todos os problemas projectuais num espaco reduzidíssimo, o que, neste caso e recorrendo aos métodos de composição ortogonais, talvez não tivesse sido viável. De modo algum imune as tendéncias estéticas do seu tempo, o Abrigo da Nora demonstra, no entanto, que um certo tipo de considerações projectuais - derivadas de uma determinada maneira de estar que privilegia a essencialidade e o despojamento -, ligadas ao conceito de villa transformado pelo século XIX, se mantém presente na região em análise, pelo menos até à década de 1960. A relevancia com que ainda é tratado o tema da paisagem, o simbolismo da serra no horizonte, o sentimento de refúgio e a fruição dos espacos exteriores, indiciam que as caracteristicas intrinsecas deste território - cuja origem se perde, como tentámos demonstrar, em tempos remotos - ainda modernamente exercem capital influência nas mais relevantes intenções de projecto, desde a implantação até à disposição interna e à relação com a envolvente. À cultura arquitectónica propriamente dita - em constante evolução ou alteração - sobrepõe-se, portanto, a "imutável" cultura da villa, que acompanha a arquitectura nas questóes vivenciais mas que remete firmemente para um passado imemorial a respectiva carga ideológica ligada aos valores do habitar simples, do recolhi.ento na natureza, do sossego e do ócio. AUS

NOTA

1 "Tese de Mestrado Integrado em Arquitectura", realizada no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

 

REFERENCIAS

Ackerman, J., 1995 [1990]. The Villa. Form and Ideology of Country Houses. Princeton University Press, New Jersey.

Caetano, M. T., 2000. Colares. Cãmara Municipal de Sintra, Sintra, Portugal.

Cardim Ribeiro, J., 2011. "Soli Aeterno Lunae - Cultos astrais em época pré-romana e romana na área de influência da Serra de Sintra: ¿Um caso complexo de sincretismo?". Diis Deabusque. Actas do II Colòquio Internacional de Epigrafia "Culto e Sociedade". Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, Sintra, p. 595-624.

Ferreira, R. H., 1992. "Keil Amaral e a Arquitectura", in Amaral, F. P. K. (coord.). Keil Amaral Arquitecto 1910-1975. Associação dos Arquitectos Portugueses, Lisboa, p. 35-97.

Gaspar, N. e Gaspar, M., 2010. Um passeio de Cintra até ao mar. Postais e fotograflas do passado. Artlandia, Lisboa, Portugal.

Nogueira, A., 1943. "Rodísio, Bairro dos Arquitectos", in Panorama, n.° 15-16 (Jul.). Secretariado da Propaganda Nacional, Lisboa, p. 49-53.

Rodrigues, A., 2001. Alfredo Keil 1850-1907. IPPAR, Lisboa, Portugal.

Vieira da Silva, J. C., 1996. "Palácio Nacional de Sintra", in Cardim Ribeiro (coord). Sintra Patrimònio da Humanidade. Cámara Municipal de Sintra, Sintra, p. 45-49.

Tostoes, A., 2000. "Casas de Férias Modernas, Anos 50 e Estilo Contemporaneo", in Jornal Arquitectos, n.° 196 (Mai.-Jun.). Ordem dos Arquitectos, Lisboa, p. 31-35.

 


Recepción/ 1 septiembre 2014
Aceptación/ 14 octubre 2014

 

 

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