Gestión turística (Valdivia) - ORGANIZAÇION LOCAL DE ITINERARIOS TURÍSTICOS EN LA REGION METROPOLITANA DE CURITIBA, PARANÁ, BRASIL
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Gestión turística (Valdivia)

ISSN 0718-6428 versión on-line

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  Gest. tur. (Valdivia) n.13 Valdivia jun. 2010




Gest. Tur, N° 13, Jun. 2010, 93-112
DOI:10.4206/gest.tur.2010.n13-04

RESULTADOS DE INVESTIGACION

 

ORGANIZAÇION LOCAL DE ITINERARIOS TURÍSTICOS EN LA REGION METROPOLITANA DE CURITIBA, PARANÁ, BRASIL

ORGANIZATION OF LOCAL TOURIST ITINERARIES IN THE METROPOLITAN REGION OF CURITIBA, PARANA, BRAZIL

 

Autores

Letícia Bartoszeck Nitsche, Bacharel em Turismo, Mestre e Doutoranda em Geografia Professora do Departamento de Turismo da Universidade Federal do Paraná – UFPR. lticia@gmail.com.
Luciane de Fátima Néri, Bacharel em Turismo, Máster em Gestión Pública del Turismo, Doutoranda em Turismo y sostenibilidad (ULPGC), Professora do Departamento de Turismo da Universidade Federal do Paraná – UFPR. luciane@ufpr.br.
Miguel Bahl, Bacharel em Turismo e Licenciado em Geografia, Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação, Professor do Departamento de Turismo e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFPR. migbahl@ufpr.br.


RESUMEN

El artículo presenta tres rutas turísticas ubicadas en la Región Metropolitana de Curitiba – RMC, en Paraná, Brasil, y tiene por objetivo analizar sus modos de ordenación turística local. La metodología de investigación reúne el referencial teórico acerca del tema y cuenta con un carácter cualitativo basado en la experiencia teórico-práctica de los autores en el periodo de 1999 a 2008, a través de estudios y de participaciones en distintas acciones de planificación y de gestión de turismo en esta región. La investigación ha revelado que las rutas han sido estructuradas por medio de diversas acciones de gestión llevadas a cabo por la administración pública, siendo que la dinámica de la ordenación local va mas allá de la cultura familiar, de la identidad étnica y de la simplicidad de la vida campesina, destacándose la importancia de reforzar la voz activa de la comunidad en el proceso de gestión comunitaria de turismo.

Palabras claves: ordenamiento local; rutas turísticas, gestión comunitaria del turismo, desarrollo regional, estructura de producción del turismo.


ABSTRACT

The present article is about three different touristic itineraries in cities nearby Curitiba, specifically in the Região Metropolitana de Curitiba - RMC, in the State of Paraná in Brazil. The main purpose of this study is to analyze how these itineraries were organized. The research methodology chosen was a literature review of the subject presented in a qualitative approach analysis based on the authors own theoretical-practical experience, from 1999 to 2008, in studies and actual participation in numerous activities related to planning and management of tourism in the researched region. The results have shown that the existing itineraries were structured following different processes of planning and management, mostly originally from public administration. Since the dynamics of touristic itineraries should involve family culture, ethnic identity and simple country life style, the importance of firm active community participation must be encouraged and emphasized in the process of community tourism management.

Key words: local organization; sightseeing itineraries; community management of tourism; regional development; tourism production structure.


 

INTRODUÇÃO

Os municípios de Araucária, Colombo e São José dos Pinhais, dentre os vários da região metropolitana de Curitiba (RMC) que ofertam itinerários turísticos de base local, têm a mesma como principal centro emissor de visitantes. Isso tudo, num contexto em que o diálogo entre o urbano e o rural é uma constante, seja pelos fluxos entre as sedes municipais e áreas industriais com as regiões rurais, seja pela dependência da população urbana pela produção agrícola de alimentos. Outros aspectos identificados ocorrem pela crescente procura dos habitantes de Curitiba por opções de moradia e lazer fora da atmosfera de uma grande cidade, porém próximas a ela, ou seja, na sua região metropolitana.

Os atrativos de tais itinerários se caracterizam pelo modo de vida familiar dos seus habitantes, sua cultura com origem na colonização italiana e polonesa de maior incidência nos três municípios, além da paisagem que mescla áreas urbanas, naturais e cultivadas. A combinação destes elementos que se manifesta de forma diversificada reserva, no entanto, para cada localidade um aspecto único e diferencial.

A iniciativa de implantar itinerários turísticos na RMC nasceu de uma proposta de desenvolvimento turístico regional, iniciada em 1998, proveniente de órgãos de planejamento estadual1, que vislumbraram a criação de vários itinerários no entorno da capital, formando o chamado Anel de Turismo da Região Metropolitana de Curitiba (COMEC; EMATER/PR; ECOPARANÁ, 2000).

Nas esferas locais (municipais), tais itinerários foram estruturados mediante diferentes processos de planejamento e gestão, estimulando posteriormente o surgimento de estratégias de trabalho de interação que promovessem a integração entre os empreendedores da atividade turística através de associações, conselhos e participação de organizações diversas.

Com base nestas informações, identificou-se a pertinência de se realizar um estudo com o objetivo de analisar a forma de organização dos itinerários, tendo em vista a atuação das entidades locais.

Sendo assim, a pesquisa abordou aspectos concernentes ao planejamento e gestão, sob a ótica do desenvolvimento regional, utilizando como referência os itinerários “Caminho do Vinho”, localizado no município de São José dos Pinhais; “Caminhos de Guajuvira” no município de Araucária; e “Circuito Italiano de Turismo Rural” no município de Colombo. Estes itinerários foram selecionados para efeito de pesquisa, em função da sua originalidade temática e comercialização consolidada através da oferta dos mesmos também formatados em roteiros turísticos programados e operacionalizados pelas agências de viagens de Curitiba.

A presente pesquisa é pautada em uma abordagem qualitativa, de cunho teórico-prático, onde a atuação na área de estudo ocorre desde 1999 com recorte até 2008, por meio da participação dos pesquisadores em grupos de trabalho institucionais, em oficinas de programas do governo federal (Programa Nacional de Municipalização do Turismo - PNMT e Programa Nacional de Regionalização), no assessoramento técnico aos itinerários, na docência em cursos de capacitação para a comunidade, além da realização de pesquisas envolvendo turismo de base local, desenvolvimento rural, etnias e roteirização.

Em 2008, foram realizados contatos específicos visando investigar as formas de organização local de cada um dos itinerários mencionados sob o ponto de vista dos diversos atores envolvidos: representantes das associações de empreendedores, dos conselhos municipais, das Prefeituras Municipais (Departamentos de Turismo) e entrevistas informais com empreendedores e moradores das áreas dos três itinerários focados.

Itinerários Turísticos da Região Metropolitana de Curitiba

A característica principal da oferta turística organizada sob a forma de itinerários na RMC está relacionada às temáticas das etnias colonizadoras da região, de inserção dos produtos locais e dos recursos naturais presentes. Neste contexto, houve uma preocupação em exaltar características existentes que pudessem identificar e diferenciar os itinerários uns dos outros, destacando vocações e atrativos locais. Outro aspecto esteve identificado ao de se criar fluxos de circulação turística e de estimular a formação de uma estrutura de produção do turismo dos municípios. A esse respeito pode-se apresentar que:

A estrutura de produção do turismo é composta pelos agentes locais que são os meios de hospedagem, restaurantes, entretenimento, agências de receptivo; pelos agentes externos, que incluem as operadoras de turismo e as agências de viagens e pelos agentes de apoio, que são as empresas de transporte, bancos, hospitais e postos de combustíveis, dentre outros serviços. Há ainda o ambiente institucional, representado pelo poder público e as leis e normas que atuam na regulação do setor. (GOMES, 2006, p. 22-23)

O Anel de Turismo da Região Metropolitana de Curitiba (1999) propunha a implantação de vários itinerários no entorno de Curitiba: Circuito Trentino de Turismo na Serra (Piraquara), Caminhos do Mar pela Graciosa (Quatro Barras), Caminho do Vinho (São José dos Pinhais), Circuito das Colônias (São José dos Pinhais), Circuito Tamandaré de Turismo Rural (Almirante Tamandaré), Circuito Verde que te Quero Verde (Campo Magro), Roteiros das Grutas (Rio Branco do Sul), Estrada do Mato Grosso (Campo Largo) e Circuito Polonês de Turismo Rural (Araucária) e outro envolvendo dois municípios, Circuito Italiano de Turismo Rural (Colombo e Bocaiúva do Sul).

O projeto piloto foi lançado no início de 1999, com o Circuito Italiano de Turismo Rural no município de Colombo. Esta primeira experiência motivou a implantação de vários outros dos 10 itinerários municipais inicialmente previstos, bem como de outros que surgiram posteriormente e que não faziam parte da proposta inicial como é o caso do ‘Caminhos de Guajuvira’ (em Araucária, lançado em 2004); ‘Rota da Louça e Bateias’ (Campo Largo); além de um itinerário no município de Pinhais em andamento desde 2008. Na figura 1 estão assinalados 09 itinerários turísticos existentes na RMC.

 

Figura N° 1 - Itinerários Turísticos na Rmc, 2008.
 
 
Fonte: adaptado de Szuchman, 2006.

 

Cabe mencionar também a iniciativa do Fórum Metropolitano de Turismo de integrar itinerários através da proposta ‘Rotas do Pinhão’ desenvolvida em 2004, que reúne roteiros, rotas, caminhos e circuitos de 15 municípios de Curitiba e Região Metropolitana: Curitiba, Almirante Tamandaré, Araucária, Balsa Nova, Campina Grande do Sul, Campo Largo, Campo Magro, Colombo, Fazenda Rio Grande, Lapa, Piraquara, Quatro Barras, Quitandinha, São José dos Pinhais e Tijucas do Sul.

A proposição destes itinerários turísticos possibilita a formatação de diversos tipos de roteiros que correspondem a “indicação de uma seqüência de atrativos existentes numa localidade e merecedores de serem visitados” (Bahl, 2004, p. 42).

A partir de tais considerações, alerta-se para não se confundir a oferta de itinerários em que se podem desenvolver programações do tipo “faça você mesmo” com a outra definição amplamente utilizada pelo setor turístico, ligada a uma programação pré-determinada oferecida pelas agências de turismo no formato de roteiros, onde constam todos os detalhes das atividades planejadas para uma viagem, conforme se esclarece em Bahl (2004, p. 57).

[...] além dos roteiros organizados através de agências, existe uma outra modalidade de roteiros, disseminada internacionalmente: são aqueles formatados em estradas, rotas, circuitos e caminhos. Exemplos: Estrada Bonita em Joinvile (Santa Catarina), Caminho de Santiago de Compostela (Espanha), Estrada Romântica (Alemanha) e Rota dos Tropeiros (Paraná).

Os três itinerários ora analisados oferecem opções para o visitante passar o dia na área rural e conhecer a cultura da vida no campo, os produtos da agricultura, a gastronomia, a paisagem e praticar atividades de lazer diversas (passeios a cavalo, caminhadas, colhe-pague, pesca, lida rural).

Os referidos itinerários possuem seus trajetos representados por mapas pictóricos divulgados através de material informativo promocional, onde constam os pontos de visitação. Os seus percursos são orientados por placas de sinalização e as propriedades rurais e outros atrativos são identificados por placas específicas tematizadas por itinerário, as quais contêm nome do local ou atrativo, atividades, produtos oferecidos, horário de funcionamento e telefone para contato.

Além do comentado anteriormente torna-se relevante mencionar que a partir de 2004 surge uma proposta oficial de estímulo à roteirização do Ministério do Turismo em que consta que:

Podemos entender roteiro turístico como um itinerário caracterizado por um ou mais elementos que lhes conferem identidade, definido e estruturado para fins de planejamento, gestão, promoção e comercialização turística das localidades que formam o roteiro. (Brasil, 2007, p. 13)

Aspectos sobre a organização dos itinerários

Todos os itinerários tiveram início com a administração pública municipal incentivada pelo planejamento da RMC advindo de entidades estaduais, de acordo com o exposto anteriormente.

"A proposta intentava alcançar a auto-sustentabilidade, ou seja, que os municípios envolvidos através de seus organismos públicos e privados pudessem conjuntamente gerir os projetos locais, preferencialmente com uma liderança baseada na sociedade civil organizada" (Nitsche; Szuchman, 2004).

Reforçando a afirmação acima surgiram diretrizes oriundas de políticas nacionais alinhadas a um envolvimento comunitário mais acentuado:

Roteirização turística é o processo que visa propor, aos diversos atores envolvidos com o turismo, orientações para a constituição dos roteiros turísticos. Essas orientações vão auxiliar na integração e organização de atrativos, equipamentos, serviços turísticos e infra-estrutura de apoio do turismo, resultando na consolidação dos produtos de uma determinada região. (Brasil, 2007, p. 13)

Após a fase de implantação incentivada pelo planejamento regional de 1998, cada projeto transcorreu de maneira particular, conforme apresentado a seguir:

Circuito Italiano de Turismo Rural

 

Figura N° 2 - Itinerário Circuito Italiano de Turismo Rural
 
 
Fonte: Prefeitura Municipal do Colombo.

 

O perfil do cenário em que está configurado o Circuito Italiano de Turismo Rural apresenta como elementos principais os seguintes aspectos (Figura 2):

- Localização: Município de Colombo;

- População do município: 231.787 habitantes;

- Distância de Curitiba: 18 km;

- Atrativos do itinerário: 44 pontos de visitação;

- Extensão do itinerário: 32 Km;

- Características principais: agricultura orgânica, gastronomia rural, cantinas de vinho, pesque-pagues, pousadas, parques naturais e igrejas;

- Empreendimentos: unidades rurais familiares e empreendimentos exclusivamente turísticos;

- Responsáveis: Prefeitura Municipal de Colombo através da Secretaria Especial de Turismo; Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) e Associação dos Empreendedores do Circuito Italiano de Turismo Rural de Colombo (AECITUR).

No decorrer do processo, a Prefeitura Municipal motivou a formação do Conselho Municipal de Turismo - COMTUR, representado pela iniciativa privada, poder público e sociedade civil organizada (associações) com o intuito de promover uma gestão participativa do itinerário. A iniciativa privada é efetivada no COMTUR por um representante de cada segmento do turismo ou a ele vinculado no município, tais como gastronomia, hospedagem, produção agrícola, vinícolas, chácaras de lazer, entre outros.

Apesar desta representatividade, os empreendedores do itinerário perceberam a necessidade de se organizar de forma independente através da criação da Associação dos Empreendedores do Circuito Italiano de Turismo Rural de Colombo, fundada em Junho de 2006, sob o assessoramento do Sebrae.

A intenção da associação é promover a realização de ações em conjunto entre os empreendedores, inclusive fortalecendo a tomada de decisões a serem levadas ao COMTUR. A figura jurídica da associação também facilita a captação de recursos e a apresentação de projetos a fontes de financiamento, os quais anteriormente dependiam de trâmites burocráticos morosos vinculados à Prefeitura Municipal.

A organização possui 24 associados que agem de forma planejada através da elaboração de um plano de ação estratégico que abrange: captação de recursos, meio ambiente, cultura, relação com os clientes, relação entre os empreendedores, marketing, entre outros itens.

Uma das necessidades identificadas para atuação em curto prazo está ligada à divulgação do itinerário junto ao público e às agências de turismo. Além disto, também foi levantada a importância de se realizar estudos de demanda turística e investir na capacitação de recursos humanos, visando um aumento da qualidade dos serviços oferecidos.

Os empreendedores da associação visualizam a oportunidade de poderem contribuir com a valorização e conservação da cultura italiana, consolidando tais características à imagem do itinerário de maneira mais efetiva.

A associação ressalta que cuida exclusivamente dos interesses dos empreendedores, ficando a gestão do itinerário sob a responsabilidade do conselho municipal, do qual também participa como membro ativo.

Caminho do Vinho

 

Figura N° 3 - Itinerário Caminho do Vinho
 
 
Fonte: Prefeitura Municipal do São José Dos Pinhais

 

Quanto ao cenário em que se apresenta o Caminho do Vinho constam as seguintes particularidades (Figura 3):

- Localização: Município de São José dos Pinhais, Colônia Mergulhão;

- População do município: 204.198 habitantes;

- Distância de Curitiba: 15 km;

- Atrativos do itinerário: 34 pontos de visitação;

- Extensão do itinerário: 4,6 km na via principal e 13,3 Km nos ramais;

- Características principais: cantinas de vinho, produção agrícola, chácaras de lazer e eventos, gastronomia rural, cultura e arquitetura típica;

- Empreendimentos: unidades rurais familiares e uma minoria de empreendimentos exclusivamente turísticos;

- Responsáveis: Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais através da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo e Associação Caminho do Vinho Colônia Mergulhão (ACAVIM).

O itinerário foi instituído a partir da via principal da Colônia Mergulhão, localidade tradicionalmente freqüentada por visitantes motivados pela compra de vinhos artesanais, produzidos pelos descendentes de italianos que colonizaram a região e mantém sua economia baseada na agricultura familiar.

O potencial turístico foi identificado durante a realização do Plano de Desenvolvimento Turístico do município iniciado em 1998, subsidiando a implantação do itinerário em 1999.

Em 2007, a ACAVIM informou a existência de 144 pessoas ocupadas com turismo, sendo a maioria mão-de-obra familiar. O turismo normalmente está aliado às outras atividades produtivas das propriedades, representando uma renda complementar para as famílias envolvidas.

Os efeitos da implantação do itinerário são diversos e se refletem principalmente no aumento da produção local em função da demanda turística que se ampliou de 300 pessoas/mês em 1999, para 10.000/mês durante o ano de 2005 (estimativa da Secretaria Municipal da Indústria, Comércio e Turismo de SJP, 2005).

Em 1998, antes da implantação do itinerário, a produção de vinho era de 60.000 litros/ano, a qual cresceu em até quase 6 vezes, atingindo 330.000 litros em 2006. O número de cantinas produtoras de vinho também se elevou de 11 para 15 estabelecimentos. O aumento expressivo na produção também ocorreu com o suco de uva, partindo de 200 litros em 2004 para mais de 2.800 litros em 2006 (São José Dos Pinhais, 2006).

A Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais através da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo com o apoio da Emater incentivou a criação de uma associação entre os integrantes do itinerário, visando uma continuidade mais autônoma para o projeto.

Assim, os produtores rurais fundaram a Associação Caminho do Vinho Colônia Mergulhão - ACAVIM em junho de 2004, com o objetivo de “organizar os empreendimentos envolvidos na rota de turismo rural Caminho do Vinho, na área de abrangência da Colônia Mergulhão e arredores, buscando preservar a identidade rural da região, trazida principalmente pela etnia italiana” (São José Dos Pinhais, 2006).

Preocupada com a autenticidade da cultural local, a ACAVIM criou critérios para participação de novos integrantes no Caminho do Vinho, atrelados à condição do empreendedor ser morador ‘antigo’ ou possuir laços de família, com o intuito de garantir comprometimento com a tradição da comunidade.

Além da organização de festas locais, as ações da ACAVIM se restringem a aquisição de materiais de consumo, equipamentos e outros produtos de necessidade comum entre os diversos empreendimentos, não havendo um planejamento de ações de maior abrangência em relação ao desenvolvimento do itinerário e captação de recursos externos.

O poder público local tem contribuído com ações da sua competência como a pavimentação das vias de acesso, iluminação pública, instalação de portal de entrada do itinerário, oferta de espaços para eventos e divulgação institucional (folder, website), porém a associação ainda depende da prefeitura para demais ações ligadas à comercialização, como providenciar as placas de identificação das propriedades.

Caminhos de Guajuvira

 

Figura N° 4 - Itinerário Caminhos de Guajuvira
 
 
Fonte: Prefeitura Municipal do Araucária.

 

Referente ao itinerário Caminhos de Guajuvira tem-se os seguintes aspectos que lhe são inerentes (Figura 4):

- Localização: Município de Araucária, Distrito de Guajuvira;

- População do município: 94.258 habitantes;

- Distância de Curitiba: 35 km;

- Atrativos do itinerário: 10 pontos de visitação;

- Extensão do itinerário: 42 Km;

- Características principais: diversidade agrícola (fores, frutas, olerícolas), artesanato, café rural, mercearias, museus, cultura dos imigrantes poloneses;

- Empreendimentos: unidades rurais familiares;

- Responsáveis: Prefeitura Municipal de Araucária através da Secretaria de Cultura e Turismo.

Seu planejamento ocorreu a partir de 2002, sendo inaugurado no início de 2004 pela Prefeitura Municipal de Araucária, através da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo - SMCT, como parte da proposta de desenvolvimento do Turismo Rural no município, que tem como objetivo “auxiliar o resgate cultural, possibilitar mais uma alternativa de renda ao produtor rural e proporcionar ao visitante convivência com a vida no campo” (Araucária, 2005).

O planejamento deste itinerário envolveu ações de conscientização e capacitação em Turismo Rural para as comunidades, levantamento do potencial turístico e viagens técnicas para conhecimento da realidade de outros itinerários turísticos do Brasil.

Aqueles que visitam o “Caminhos de Guajuvira” têm a oportunidade de conhecer famílias de comunidades rurais tradicionais da região do Distrito de Guajuvira. Estes moradores cultivam fores, frutas e olerícolas; também produzem mel, pães, ovos, artesanato entre outros produtos do campo. Parte da população é de origem polonesa (colonização a partir de 1875) e manifesta esta cultura no seu modo de vida.

A administração pública responsável pelo planejamento e implantação do itinerário mantém-se como principal gestora. A participação da iniciativa privada no processo de gestão ocorre de forma individual, não havendo uma organização coletiva entre as propriedades rurais do itinerário.

Há que se considerar que este é o itinerário mais recente lançado oficialmente ao público em 2004, enquanto os de Colombo e São José dos Pinhais iniciaram suas atividades em 1999.

No entanto, a sustentação do itinerário apenas pelo pilar da administração municipal torna-se vulnerável, pois além de estar susceptível às mudanças políticas, não possui uma voz ativa dos empreendedores de turismo, que neste caso são predominantemente pequenos produtores rurais.

É importante ressaltar que o órgão público responsável reconhece a necessidade de uma maior participação destes produtores rurais através de uma organização coletiva entre eles. Seguindo esta idéia, o planejamento de uma ação neste sentido é foco de discussão entre os envolvidos, apontando para a criação de uma associação especifica do itinerário.

Outros Aspectos Observados

Apesar da escassez de dados estatísticos oficiais dos itinerários, principalmente sobre a renda gerada e a demanda turística, percebe-se de forma evidente que este processo de desenvolvimento turístico regional de base local tem experimentado significativos benefícios econômicos.

Garrido (2002, p. 53-54) considera que “o desenvolvimento regional pode ser apresentado em duas correntes principais, de acordo com suas origens e processos de instalação”. A primeira identificada a um planejamento centralizado de um Estado Nacional e a segunda a partir de um desenvolvimento local (endógeno) que é estabelecido a partir do sistema produtivo de um local, aproveitando as suas potencialidades sócio-econômicas intrínsecas.

Ademais, informações qualitativas coletadas, reforçam o incremento econômico e revelaram uma melhoria na qualidade de vida dos moradores locais, abrangendo outras perspectivas, como a social e a cultural, estimulando a criação de uma base comunitária e de atendimento a interesses coletivos:

A vida social baseia-se em organizações hierárquicas institucionalizadas. Ela implica igualmente que os parceiros sintam-se pertencentes a um mesmo conjunto pelo qual cada um se sinta responsável e solidário. Isto toma em alguns casos uma forma afetiva, aquela da comunidade. Noutros casos, a construção social tem fundamentos racionais, o interesse, a eficácia, a preocupação de assegurar a defesa e a segurança coletivas, por exemplo. (Claval, 2007, p. 113).

Dentre os reflexos e benefícios observados após a implantação de tais itinerários podem ser relatados:

- Investimentos por parte dos empreendedores em infra-estruturas de receptivo turístico para exposição e venda de produtos, espaço para servir alimentação, entre outras instalações (seja adaptando instalações existentes ou construindo novas);

- Investimentos dos produtores em equipamentos agrícolas, em função da crescente demanda da produção;

- Investimentos da administração pública em infra-estrutura básica e serviços, com destaque para obras de paisagismo;

- Participação mais ativa da comunidade nas festas locais, como oportunidade para venda de produtos e pelo interesse de participar com manifestações folclóricas e artísticas;

- Comercialização de outros produtos, antes restritos ao consumo familiar como verduras frescas, sucos, conservas, geléias, queijos, pães etc.;

- Diversificação da produção familiar;

- Valorização cultural: recuperação de casarios históricos, criação de grupos folclóricos étnicos e resgate de antigos hábitos dos seus colonizadores;

- Melhoria da auto-estima dos moradores locais.

CONCLUSÕES

Primeiramente é válido destacar a dificuldade de efetuar comparações diretas entre estes três itinerários, por tratar-se de realidades espaciais e temporais diversas e de envolvimentos coletivos diferenciados.

Apesar das diferenças entre eles, é comum a todos terem iniciado sob a coordenação do poder público e posteriormente passar por um processo onde as organizações locais são apontadas como fundamentais para revitalizar a dinâmica de gestão. A forma de atuação das gestões locais está relacionada com o histórico e estrutura de cada itinerário.

Mais recentemente se observa a existência de recomendações para que se incentivem tais procedimentos, pois “no processo de roteirização deverão ser envolvidos, além das Instâncias de Governança Regional, representantes do poder público, dos empresários, da sociedade civil organizada e das instituições de ensino”. (Brasil, 2007, p. 25)

O itinerário de Colombo, maior em termos de número de atrativos e comunidades envolvidas, apresenta problemas com a ordenação turística do seu território e se depara com dificuldades organizacionais tanto dos empreendimentos entre si como na sua relação com o poder público.

Mediante seu histórico de planejamento como primeiro itinerário implantado, constata-se que sofreu uma pressão maior para mostrar resultados, sendo alvo constante de reportagens da imprensa, pesquisas acadêmicas, cursos e eventos, provocando um amadurecimento precoce e como conseqüência que algumas etapas essenciais de planejamento não fossem cumpridas, como a de se elaborar um diagnóstico detalhado ou um monitoramento de resultados. Tais circunstâncias também foram agravadas pela descontinuidade política, em função da mudança da administração municipal.

É nesse contexto que os empreendedores, insatisfeitos com a gestão pública, propuseram-se a criar uma associação que tivesse por objetivo defender seus interesses de forma mais efetiva e autônoma, possuindo visão de mercado e propostas planejadas sob um enfoque estratégico.

Outra característica que deve ser considerada é a formação deste itinerário por aproximadamente metade de empreendimentos que dependem do turismo como principal fonte de renda, diferentemente do de São José dos Pinhais, que tem seu itinerário concentrado em uma única comunidade, possuindo uma coesão entre seus integrantes de origem rural familiar mesclado por apenas alguns empreendimentos exclusivamente turísticos.

No caso de São José dos Pinhais, se observa uma associação que ainda pode expandir sua área de atuação, pois está restrita à compra de materiais provenientes dos recursos das mensalidades dos seus filiados e arrecadações de festas locais.

No entanto, reconhece-se que com a associação o primeiro passo foi dado, destacando-se a necessidade dos empreendedores locais receberem orientações a respeito do que podem fazer e como fazer.

Por sua vez, o itinerário "Caminhos de Guajuvira” de Araucária possui características semelhantes ao de São José dos Pinhais referente aos seus integrantes e disposição espacial, tendendo a seguir trajetória similar e, portanto, também se vislumbra a necessidade de orientações e assessoramento para desenvolver uma forma de organização coletiva independente.

Visto que a implantação destes itinerários vem trazendo resultados favoráveis às comunidades locais caracterizadas pela economia familiar e pela cultura tradicional, evidencia-se a importância da população também reforçar sua voz ativa no processo de gestão comunitária do turismo, onde se faz premente uma organização comunitária representativa nos processos de desenvolvimento turístico. Isso tudo, também em consonância com a idéia de que “os municípios das regiões turísticas brasileiras se organizem com base nos princípios da sustentabilidade ambiental, econômica, sociocultural e político-institucional” (Brasil, 2007).

NOTA

1 Principais instituições envolvidas 1998-2003: Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural – Emater/PR (então Empresa Paranaense de mesmo nome), Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba – COMEC, Serviço Social Autônomo Ecoparaná e Prefeituras Municipais, bem como outras entidades e programas: Serviço Brasileiro do Apoio às Micro e Pequenas Empresas - Sebrae/PR, Paraná Turismo, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, Programa Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), Programa Paraná Doze Meses, Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar -PRONAF, Programa Fábrica do Agricultor e Fundo de Amparo ao Trabalhador. A partir de 2004, além das principais instituições envolvidas citadas, conta-se com a participação do Fórum Metropolitano de Turismo; Secretaria de Estado de Turismo – SETU, Associação dos Municípios – ASSOMEC e o Instituto Curitiba Turismo, entre outras.

REFERÊNCIAS

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- Bahl, M. (2004). Viagens e roteiros turísticos. Protexto, Curitiba. ISBN: 8589026256.

- Claval, Paul. (2007). A geografia cultural (tradução de Luíz Fugazzola Pimenta e Margareth de Castro Afeche Pimenta). 3. ed. Florianópolis, Ed. da UFSC. ISBN: 9788532803894.

- Prefeitura Municipal do Colombo. (Material de divulgação sobre o Circuito Italiano de Turismo rural), s/d.

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Recibido: 22/09/2009
Aprobado: 10/05/2010
Arbitrado anonimamente

 

 

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