Gestión turística (Valdivia) - O NOVO PARADIGMA DOS DESTINOS TURÍSTICOS TERMAIS
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Gestión turística (Valdivia)

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  Gest. tur. (Valdivia) n.9 Valdivia jun. 2008




Gestión Turística. Nº 9: 9-36

RESULTADOS DE INVESTIGACION

 

O NOVO PARADIGMA DOS DESTINOS TURÍSTICOS TERMAIS

THE NEW PARADIGM OF THERMAL TOURISM DESTINATIONS

 

Autora:
Adília Rita Ramos

Doutorada em Turismo pela Universidade de Aveiro.
Docente na Escola Superior de Educação de Coimbra.
Membro do Núcleo de Investigação em Turismo na Universidade de Aveiro, Portugal.

Co-autora:
Rossana Andreia Santos

Mestre em Gestão e Desenvolvimento e Turismo pela Universidade de Aveiro.
Docente na Escola Superior de Educação de Coimbra.
Doutoranda na Universidade de Aveiro, Portugal.


RESUMO

O turismo termal associa-se hoje a uma abrangência conceptual que ultrapassa o termalismo clássico e que é fundamental para a consolidação de projectos turísticos atractivos e sustentáveis. Assim, reconhecendo a problemática da insuficiência termal portuguesa, tornou-se imperioso avaliar o tipo de desenvolvimento que a oferta defende para o sector, de forma a satisfazer e incrementar a procura turística. Para o efeito, foram analisados três estudos de caso - Português, Francês e Alemão - que reflectem realidades diferentes, para que fosse possível identificar estratégias de intervenção suportadas em modelos de referência aplicados ao caso português. Os resultados das análises de um estudo empírico à oferta termal, baseado no modelo de excelência do caso alemão e nos resultados do estudo exploratório a especialistas ligados a actividades de turismo/ termalismo, permitiram concluir a urgência da reestruturação das estâncias termais pela articulação e complementaridade entre o termalismo curativo, preventivo e lúdico e sua complementaridade regional/local.

Palavras-chave: Termalismo; Novo Paradigma; Modelo de Reestruturação Termal, Estâncias Termais Portuguesas.

ABSTRACT

Thermalism is presently associated with a comprised concept that surpasses classical thermal treatment and is fundamental to consolidate attractive and sustainable tourism projects. Thus, recognizing the problem of the Portuguese thermal inadequacy, it was considered necessary to analyze the adjusted type of development to thermal supply, making it possible to identify intervention strategies supported by reference models applied to the Portuguese case. For the effect, three case studies were analyzed - Portuguese, French and German - that reflect different realities, so that it was possible to identify intervention strategies supported on referenced models to be applied to the Portuguese case. The results of the analyses of an empirical study of the thermal offer, based on the excellence model of the German case and on the results of the exploratory study to a board of tourism/thermalism experts, allowed us to conclude the urgency of the restructuring of the Portuguese thermal resorts through the articulation and complementarity between healing, preventive and entertaining thermalism as well as its regional/local complementarity.

Key-words: Thermalism; New Paradigm; Thermal Restructuring Model; Portuguese Thermal Destinations.


 

INTRODUÇÃO

Indissociável do bem-estar, a saúde revela-se como um dos temas incontornáveis do novo milénio, sendo evidente a grande tendência para a crescente preocupação dos sujeitos com o corpo e a boa forma física, que se traduz na necessidade de nos sentirmos mais saudáveis e até mais jovens, na busca permanente de melhor qualidade de vida. A este nível, o conceito de saúde tem evoluído: saúde não é mais considerada como ausência de doença, mas sim um objectivo de vida (Williams, 1934, citado por Fontanari, 2004: 1). A afirmação de Williams (1934:162) corrobora a afirmação anterior, considerando que a saúde como ausência de doença é uma norma da mediocridade; saúde como qualidade de vida é uma norma para o entusiasmo e perfeição.

Esta evolução do conceito de saúde tornou imperioso proceder à clarificação conceptual do conceito e da(s) prática(s) termal(is), considerando os novos paradigmas de uma sociedade qualitativa, terminologias emergentes e áreas de abrangência e conexão inerentes àquele conceito. Neste contexto, múltiplas têm sido as teorias desenvolvidas sobre a clarificação conceptual do termo lazer ao longo do século XX. Em 1996 Costa apresentou duas das perspectivas que mais se destacaram na apropriação e definição do termo lazer. São elas a perspectiva holística e a perspectiva orgânica. Na tese defendida pela perspectiva holística, o lazer é definido como um tempo de tranquilidade e descontracção, mas sem subjugação a um tempo específico, enquanto que na perspectiva orgânica, lazer implica impedimento a actividades laborais, revelando-se, por isso mesmo, uma clara distinção entre trabalho e lazer, bem como, entre trabalho e vida privada, defendendo que, e contrariamente à perspectiva holística, mesmo que se preconizem algumas actividades ligadas ao lazer durante as actividades laborais, elas não são senão residuais, comparativamente com o tempo e a absorção exigidos pelo trabalho (ver Boniface & Cooper, 1994; Costa, 1996; Neumeyer & Neumeyer, 1958).

Vários estudos têm procurado apontar o futuro modelo padrão da procura de lazer(es). O método geralmente apontado consiste em conhecer as características das pessoas que agora mais gozam de actividades específicas, ligadas ao lazer, avaliar a estrutura da população futura, em termos dessas mesmas características, para então, procurar definir as futuras taxas de participação. Um desses estudos, citado por Young & Willmott (1973: 375), já sugeria que: ... o lazer das pessoas, a partir de 2001, será mais variado e mais activo, com um aumento da actividade física, uma tendência natural para programas de relaxamento e de prática de desportos, bem como, para uma cada vez mais intensa participação cultural (Parker, 1978).

Segundo Costa (1996: 6) o tempo de recreio ocupa um espaço de tempo dedicado ao lazer e é nesse espaço de tempo dedicado à recreação pessoal, que os indivíduos se ocupam muitas vezes a fazer turismo. Tal como no lazer, também o conceito de turismo não evidencia ainda uma definição consensual e universal. A este propósito, são vários os académicos que sustentam as diferentes análises conceptuais do turismo. Neste sentido, entre as múltiplas definições de turismo, a que foi proposta em 1994 pela Organização Mundial de turismo, refere que o turismo é aquele que compreende as actividades que as pessoas realizam durante as suas viagens e estâncias em lugares distintos do seu meio habitual, por um período de tempo consecutivo inferior a um ano, com fins de ócio, negócios ou outros motivos.

No entanto, mesmo esta noção simples e pragmática, reveste-se de um forte carácter de subjectividade o que torna penosa, ou até mesmo difícil, adoptar uma definição universal de turismo. Um turista de negócios, por exemplo, associa frequentemente o seu tempo de trabalho remunerado, ao tempo de descontracção e de visita, ligado à especificidade dos lugares para onde se deslocou e onde se encontra. Pela mesma razão, um turista de saúde poderá associar aos inúmeros tratamentos de cura ou prevenção, inúmeras actividades, que se incluirão nos tempos livres destinados a completar todo o processo de reconstituição física e psíquica, não deixando por tal razão de se considerar um termalista, porque frequentador e utilizador dos estabelecimentos termais, mas devendo igualmente ser considerado um turista porque consome cultura, gastronomia, actividades desportivas, entre outras.

Apontar uma definição de turismo e de turista não parece, efectivamente, tarefa fácil, imagem configurada pelas múltiplas definições de turismo evidenciadas ao longo dos anos. Enquanto algumas dessas definições procuraram atingir a universalidade, ou a aplicabilidade a múltiplas situações, outras foram surgindo com a intenção de dar resposta a objectivos ou finalidades e preceitos específicos (Weaver & Oppermann, 2000). Permitimo-nos, então, interrogar se não terá chegado um novo contexto, ou pelo menos uma nova dimensão social, que às actividades ligadas ao lazer e descontracção, terá de associar cada vez mais actividades ligadas à prevenção da saúde, ou mesmo ao tratamento de determinadas patologias em regime voluntário, sem para isso se estar condenado ao rótulo de doente, velho e idoso, ou ultrapassado...? (Ramos, A., 2005)

A revisão da literatura sobre o importante conceito de termalismo, que tem por base um recurso capital – a água termal – baseada nos seguintes autores: Bywater, 1990; Cazes, 1995; Ébrard, 1981; Fortuné, 1975; Jamot, 1988, Jarrassé, 1994, Langenieux-Villard, 1990; Lopes, 2002; Louro, 1995; Monbrison-Fouchère, 1995; Nahrsted, 1997; Nahrstedt, 2000; Narciso, 1940; Penez, 1994; Pina, 1990; Pollock, A. & Williams, 2000; Simões & Cruz, 1997; William, 1998, permitiu identificar características nucleares nesta abordagem. O termalismo inclui pois, o conjunto de todos os meios medicinais, sociais, sanitários, administrativos e de acolhimento, devidamente estruturados, com vista à utilização para fins terapêuticos das águas minerais, do gás termal e de lamas. A palavra termalismo implica, desde logo, a indicação e utilização de uma água termal com virtudes curativas reconhecidas, através dos seus efeitos químicos térmicos e mecânicos, pela classe médica.

Tendo-se verificado uma permanente e oportuna evolução deste conceito, adaptado sobretudo às novas exigências dos mercados e aos ritmos de vida acelerados, o termalismo tem sido abordado, insistentemente nos últimos vinte anos, numa perspectiva transversal, o que significa não o reduzir à vertente puramente medicinal mas, associálo a dimensões de vida cada vez mais saudável, mesmo que tal opção prescinda, por vezes, da sua vertente exclusivamente curativa, pese embora se incluam outro tipo de vertentes: a preventiva, a lúdica e a de bem-estar. Contrariamente, se considerarmos uma oferta constituída quase exclusivamente por tratamentos clássicos, com a duração de catorze a vinte e um dias, facilmente se compreende o problema com que a maioria das estâncias termais portuguesas se têm confrontado, ao nível de rentabilidade das suas infra-estruturas e equipamentos devido, fundamentalmente, à sua reduzida frequência termal. O caso francês e o caso português testemunham esta situação pelo número de clientes nas estâncias termais, que ilustramos no gráfico Nº1. De destacar ainda, o lugar de excelência que o mercado termal alemão ocupa, comparativamente com aqueles, cujos dados comparativos também se encontram expostos.

 

Gráfico n° 1
 
 
* Fonte: D.H.B. / DESTATIS
** Fonte: France Thermale / E.S.P.A.
*** Fonte: I.G.M.
(Citado por Ramos, A, 2005: 259, adaptado)

 

O número de clientes nas estâncias termais em análise reflecte o resultado de diferentes estratégias de intervenção (Portugal, França e Alemanha), que fazem com que o modelo termal alemão se evidencie actualmente como um caso de excelência pelas suas características nucleares. Este modelo de referência contrasta com o posicionamento actual das estâncias termais em Portugal, que se consubstancia na degradação da sua imagem, no envelhecimento das suas estruturas e numa forte ligação à doença (Ramos, A., 2005). Do mesmo modo, a análise do caso francês apontou para um novo contexto de desenvolvimento, sendo mesmo imperativo, segundo Cohen (1998), que o termalismo francês se expanda por um termalismo novo, rejuvenescido e lúdico, que procure associar as virtudes da água termal às prestações de saúde, inspirados em experiências e modelos de desenvolvimento já frequentes no estrangeiro, muito especialmente no caso alemão.

A este nível, Portugal é um dos exemplos europeus que evidencia maior riqueza, abundância e diversidade das águas minerais naturais. Esta riqueza de águas minerais naturais portuguesas deve-se, não só, à constituição geológica do território, como também às acentuadas orogenias (fenómenos resultantes de movimentos da crosta terrestre). A concentração das termas portuguesas a norte do país encontra assim a sua justificação na orogénese, igualmente responsável pela ascensão de inúmeras fontes termais a temperaturas consideradas elevadas. Neste contexto, quais serão as razões que têm conduzido à sua insuficiência termal, uma vez que facilmente se conclui que Portugal evidencia excelentes condições para o desenvolvimento do termalismo baseado num recurso endógeno de incomparável qualidade e que se poderá afirmar como elemento distintivo de outros países – a sua água mineral natural? Será que a revitalização das estâncias termais portuguesas deverá ser suportada pelo novo conceito termal/turístico?

METODOLOGIA

Reconhecendo a evolução paradigmática de conceitos fundamentais como os de saúde, bem-estar, lazer, turismo e termalismo, bem como a problemática actual da insuficiência termal portuguesa procedeu-se a uma selecção de modelos de organização termais, considerados pragmáticos, no desenvolvimento do turismo termal, em diferentes países europeus. A pesquisa bibliográfica e a análise documental do modelo termal português, francês e alemão – estes últimos apresentados como estudos referenciais – foram considerados, relevantes para uma análise comparativa e sistémica dos referidos modelos organizacionais, bem como para a plena percepção dos tipos de organização, graus de inovação, limitações e formas de desenvolvimento das estâncias termais, em países de considerável tradição termal.

O facto dos países de civilização germânica, Alemanha, Áustria e Suíça, terem constituído um bloco coeso e de vanguarda da concepção termal e o facto da Alemanha ser presentemente reconhecida como o primeiro país europeu em matéria de estações termais e de níveis de frequência das mesmas, bem como, de diversificação de serviços oferecidos (Ramos, A., 2005), constituíram os factores nucleares para a escolha do caso alemão, como um dos casos de excelência e de análise, para o conhecimento transversal do sector termal europeu, das políticas implementadas, e das limitações e constrangimentos sentidos, nos últimos anos.

Neste contexto, repensar a adopção de novas medidas no termalismo português, bem como, analisar as diferentes sensibilidades da oferta termal portuguesa, partindo de um estudo empírico, com base no exemplo alemão e das possíveis adaptações de medidas e de políticas à situação lusa, constituíram a grande essência para a elaboração e concretização dos objectivos deste estudo que se encontram reproduzidos no quadro Nº1.

 

Quadro N°1
Objectivos gerais e específicos da pesquisa
 
Objectivos gerais
 
Objectivos específicos

a) Conhecer as grandes etapas de desenvolvimento termal no mundo e na Europa.

• Identificar períodos chave da cultura termal: europeia e
mundial
• Caracterizar cada um desses períodos
• Estabelecer em cada um dos referidos períodos uma relação
entre as formas de termalismo mais curativo e/ou mais lúdico.

b) Conhecer a(s) sensibilidade(s) dos Concessionários termais face à tendência de revitalização termal e da aposta de transformação das estâncias termais em destinos turísticos de excelência.

• Identificar diferentes conceitos de desenvolvimento termal
• Reconhecer formas distintas de percepção da importância de
(re) qualificação dos territórios termais
• Identificar linhas de actuação tendentes à manutenção da
qualidade patrimonial das estâncias termais

c) Avaliar as suas prioridades, através de medidas concretas de acção e do estabelecimento de parcerias conjuntas.

• Reputar diferentes formas de percepção do desenvolvimento turístico das estâncias termais
• Identificar etapas concretas nos planos de desenvolvimento
turístico das estâncias termais

d) Conhecer as diferentes formas de percepção de sinergias termais e possíveis níveis de articulação entre as mesmas.

• Identificar diferentes sinergias nas estâncias termais
• Reputar a importância da sua consideração no desenvolvimento e na atracção das estâncias termais
• Evidenciar possibilidades de articulação e de
complementaridade(s) entre as referidas sinergias

e) (Re)Conhecer o modelo/tipo de estância termal atractiva, e propiciadora de um completo bem-estar.

• Identificar casos de boas práticas termais
• Confrontar os referidos casos com testemunhos analisados

f) Avaliar a hipótese de conciliação entre as formas de tratamento mais clássico e as de tratamento mais lú dico, nas estâncias termais portuguesas.

• Identificar modelos de organização termal associados a boas práticas
• Compará-los e adaptá-los à realidade portuguesa

 
Fonte: Ramos, A. 2005: 305

 

A abrangência do tema e a complexidade do(s) problema(s) implicou a utilização de uma multiplicidade de técnicas, inseridas em análises de cariz qualitativo (estudo exploratório com utilização da técnica Delphi) e quantitativo (estudo empírico). Neste sentido, numa primeira fase da investigação, recorreu-se à técnica Delphi para que fosse possível compreender e explicitar as dimensões subjacentes a um modelo desejável de termalismo português, na perspectiva de peritos inquiridos. Para o efeito, foram aplicados questionários/entrevistas a um painel de doze especialistas, formado por três grupos de profissionais ligados a actividades de Turismo/Termalismo, nomeadamente Professores Universitários (4), entidades da Administração Pública com actuação profissional relevante, nas áreas do Turismo e Termalismo em Portugal (4) e, Concessionários de algumas estâncias termais portuguesas (4). Não obstante, no sentido de encontrar um equilíbrio nas tendências de respostas apresentadas, optou-se por seleccionar um número equivalente em cada um dos três grupos. Embora não se tenha procedido à realização de novos rounds, uma vez que o objectivo não consistiu tanto em encontrar consensos teóricos (como aponta a própria literatura) mas sim, em recolher informação que permitisse delinear e sequenciar a investigação (ver por exemplo, Gupta & Clarke, 1996: 184), foram respeitadas todas as regras estipuladas pela técnica Delphi (Ramos, A., 2005: 355).

Numa segunda fase, decorrente da necessidade de se reconhecer e apurar informações pertinentes relativas à revitalização do termalismo, de uma nova concepção de estância termal, onde o turismo assume uma dimensão alargada e complementar às actividades basilares, foi ainda realizado um estudo quantitativo conduzido em Portugal Continental a todas as estâncias termais aí localizadas, tendo sido inquiridas 85% do universo (ver figura Nº1), através do recurso à estatística e às probabilidades, para que fosse possível generalizar algumas conclusões. A população-alvo dos inquéritos aplicados foi constituída por gestores/administradores ou concessionários das termas; directores clínicos/médicos; directores técnicos e directores ou responsáveis de balneários.

 

Figura N°1
Estâncias termais portuguesas
 
 
Fonte: Termas de Portugal, 2007 (adaptado).

 

A análise da oferta no domínio do termalismo/turismo termal exigiu a elaboração de um inquérito por questionário distribuído aos quadros superiores, com maior poder decisório na gestão das estâncias termais portuguesas. Considerou-se, assim, essencial compreender a posição duma parte do sector termal sob duas dimensões a que se deu particular destaque no questionário aplicado: como perspectiva/caracteriza o termalismo português na actualidade (Parte I); o que se vislumbra necessário efectuar no sentido de se implementar a reestruturação do sector termal em Portugal – oportunidades e dificuldades. Procurou-se, por outro lado, sustentar empiricamente a existência (ou não) das relações teoricamente estabelecidas entre aquelas duas dimensões (Parte II).

Os principais resultados obtidos na metodologia descritiva tiveram por base o Questionário TERGAL, que reúne 7 instrumentos de medida distintos e que submetemos a validações de conteúdo: Questionário VAT – Visão Actual do Termalismo; Questionário PAT – Posicionamento Adjectival do Termalismo; Questionário FET – Funcionamento das Estâncias Termais; Questionário MAT - Motivos de Alteração do Termalismo; Questionário RAT, Reestruturação da Actividade Termal; Questionário DRT, Dificuldades à Reestruturação Termal; Questionário ORT, Oportunidades à Reestruturação Termal; e ainda Questionário PAS - Programas, Actividades e Serviços. A recolha dos dados da investigação empírica foi anterior à data de publicação da nova legislação relativa à actividade termal portuguesa (Decreto-Lei 142/2004 de 11 de Junho). O programa seleccionado para o tratamento estatístico dos dados foi o SPSS, versão 12.0, para o sistema operativo Windows. A elaboração do referido instrumento de avaliação – Questionário TERGAL – teve ainda como grande matriz orientadora não só os resultados obtidos no estudo exploratório, através de peritos especializados, como também os dez grandes paradigmas termais consubstanciados no modelo termal alemão (Ramos, A., 2005: 311):

P1- O termalismo original caracterizou-se, ao longo da história, e salvo períodos bem contextualizados no tempo, por uma euforia e um encanto particulares, em que as termas surgem como lugares privilegiados de encontros e de prazeres, associados à água e a uma envolvência territorial fortemente estimulante;

P2- O termalismo associou-se a um certo elitismo, onde as termas se distinguem como locais turísticos de excelência para todos os que procuram o vigor, a satisfação e o bem-estar, numa partilha do prestígio social e de prazeres, que ali os conduzia;

P3- A hegemonia do termalismo dilatada até ao final da primeira metade do século XX, surge, assim, inserida numa visão estratégica aplicada às estâncias termais, e a um conjunto de factores associados ao lazer, bem-estar e satisfação pessoal, que, não entendendo o aquista como um condenado ao marasmo o considera como um turista de excelência;

P5- Porém, a interferência do Estado, nas diversas sociedades europeias de grande tradição termal, através da implementação de políticas sociais, adulterou o espírito vigente até então, levando o termalismo a crises mais ou menos profundas e a alterações da imagem termal (caso português, francês e mesmo alemão);

P6- Por outro lado, o enfraquecimento dos Estados-providência, reduzindo significativamente a comparticipação termal aos cidadãos, ao longo da segunda metade do século XX, provocou quebras acentuadas na frequência termal, o que veio acentuar a estagnação e a descredibilização do termalismo português e europeu;

P7- A alteração do tipo de clientes, associado ao desinvestimento e à letargia a que as foram condenando, originou deficits irreversíveis na imagem das termas, associando-as sobretudo à doença e à melancolia, à velhice e à morte;

P8- Tal facto, associado à massificação das termas, resultante das vastas comparticipações sociais, fez diluir a auréola simbólica da actividade termal, originando o desvio de elites que sustentavam, a vida de luxo, de qualidade, e de prazer das termas, que se viram reduzidas a subvenções sociais cada vez mais ténues, e a desinvestimentos acentuados, o que se veio a revelar trágico para o desenvolvimento do termalismo em geral;

P9- Porém, a crise maior do termalismo surge quando a doença se sobrepõe à saúde e o turismo se subtrai à actividade termal;

P10- Fechado este ciclo termal adverso ao termalismo, parece (re)nascer uma nova cultura ligada à água e seus benefícios, uma nova onda de vitalidade, uma nova fonte de prazer e de (re)equilíbrio físico – um novo ciclo termal – que urge consolidar e não desperdiçar, face aos novos mercados emergentes.

Não obstante, o modelo de reestruturação termal proposto e analisado na secção seguinte, resultou da combinação da síntese elaborada após a análise das teses construídas no seguimento das entrevistas, que permitiram iniciar a investigação, bem como do resultado do tratamento da informação recolhida nos questionários aplicados ao sector da oferta, de todas as estâncias termais portuguesas.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Como resultado da análise de conteúdo das entrevistas da primeira fase da investigação, apresenta-se de seguida um conjunto de teses dos doze especialistas inquiridos. Foi a partir da sua síntese, que se procurou fazer emergir um modelo que reflectisse um novo ciclo termal e que é urgente consolidar e implementar nas estâncias termais de Portugal (Ramos, A., 2005: 360-364):

Tese 1: “A articulação entre o termalismo clássico e o termalismo lúdico em Portugal é possível”:

a) A articulação referida vislumbra-se, como uma exigência dos vários mercados emergentes que, procurando garantir a sobrevivência económica das termas, permitirá acrescentar valor ao sector;

b) É uma exigência que urge implementar, quer do ponto de vista económico, quer do ponto de vista social, uma vez que permitirá uma liberalização na alternativa à cura convencional (que exige a necessária regulamentação pela(s) respectiva(s) tutela(s);

c) Permitirá, por outro lado, explorar um potencial único existente em Portugal, quer ao nível da qualidade das águas minero-medicinais, quer ao nível da riqueza patrimonial e ambiental das estâncias termais;

d) Possibilitará a utilização das termas como espaços multifuncionais, que em simultâneo se apresentem como centros de cura, de bem-estar e de lazer; deste modo, as termas surgirão, também, como espaços de enriquecimento pessoal, a vários níveis, possibilitando o encontro de dois mundos distintos – o urbano e o rural;

e) É imprescindível às estratégias de desenvolvimento futuro, que permitam e promovam um crescimento qualitativo das termas, constituindo-as como destinos turísticos alternativos ao sol e mar.

Tese 2: “Esta articulação permite acrescentar valor às termas em Portugal”:

a) Tal articulação acrescentará valor às termas em Portugal, fornecendo produtos alternativos aos já existentes e fomentando a complementaridade e a coexistência de diferentes produtos;

b) Através da integração das termas nas comunidades em que se encontram inseridas, diversificando a oferta de serviços a menores custos, apoiando-se nos recursos locais e regionais, o que permitirá o incremento do desenvolvimento local;

c) Através da optimização dos recursos da região envolvente, como o património natural e patrimonial que, revalorizados, promoverão um crescimento qualitativo do turismo termal;

d) Alargando o conceito de estância termal e articulando serviços diferenciados que incluam quer a vertente curativa, quer a preventiva quer ainda a de bem-estar;

e) Aumentando a capacidade de atractividade das termas sustentada no crescimento qualitativo do turismo termal;

f) Valorizando as condições naturais e patrimoniais que devem ser efectivamente revalorizadas. Não utilizar tal riqueza é desperdiçar condições e recursos já existentes, mas igualmente necessários ao desenvolvimento local e regional;

g) Proporcionando modelos de desenvolvimento diferenciados e permitindo uma utilização flexível com liberdade de opção para os clientes;

h) Promovendo a revitalização dos territórios termais com qualidade, contemplando um plano de desenvolvimento alargado a toda a envolvente e potenciando os recursos históricos, paisagísticos, ambientais e culturais.

Tese 3: “Esta articulação permite viabilizar, do ponto de vista económico, as termas em Portugal”:

a) Através de uma gestão eficiente e de uma atitude empresarial de viabilidade económica, tendo em conta, as potencialidades das comunidades e do poder local, e dos equipamentos turísticos disponíveis ou a desenvolver;

b) Diminuindo a sazonalidade, verdadeira epidemia termal, uma vez que parece inconcebível que estâncias termais proporcionadoras de programas de bem-estar, de saúde e de lazer, se encontrem encerradas dois terços do ano, numa parte considerável das termas portuguesas;

c) Através da captação de fundos monetários consideráveis, uma vez que a revitalização termal se apresenta dispendiosa; tais financiamentos, mais facilitados nas estâncias termais geridas por grupos privados, permitem a diversificação da oferta e aumentam a capacidade de captação de públicos diferenciados.

Tese 4: “Esta articulação permite responder às exigências dos mercados emergentes das termas em Portugal”:

a) Através do reposicionamento das estâncias a um público plural e por uma redefinição dos segmentos de mercado;

b) Através da capacidade de servir em simultâneo duas clientelas distintas, e pela oferta de produtos alternativos, procurando sempre conciliar de uma forma harmoniosa o termalismo clássico com a visão mais moderna do mesmo;

c) Pela articulação e complementaridade de estruturas que contemplem o lado lúdico, preventivo e curativo. A vertente lúdica mais ligado às estruturas complementares e o preventivo e curativo mais ligado aos estabelecimentos termais propriamente ditos;

d) Tal articulação deve ter em consideração o tipo de termas em questão uma vez que nem todas revelam dimensões equivalentes, nem infra-estruturas consistentes, nem sequer um mercado que justifique a implementação de tal articulação.

Tese 5: “Este modelo de articulação entre o termalismo clássico e o termalismo lúdico respeita a complementaridade de conceitos”:

a) Permitindo uma complementaridade de conceitos bem como uma complementaridade do desenvolvimento regional e local;

b) Pela clara explicitação e regulamentação dos conceitos de termalismo clássico ou tradicional e de termalismo lúdico;

c) Pela coexistência de vários modelos de desenvolvimento;

d) Pela inclusão de mudança de hábitos de vida, que permitam a criação de alternativas geradoras de bem-estar, ultrapassando-se, assim, o sentido estrito de saúde;

e) Este modelo de articulação sustenta-se no conceito de preservação da saúde, do qual emergiu a necessidade de se criarem novas regras de utilização das termas, como espaços multifuncionais, respeitando sempre as potencialidades das suas águas minero-medicinais.

Tese 6: “Este modelo de articulação entre o termalismo clássico e o termalismo lúdico respeita a complementaridade regional/local”:

a) Através de uma gestão cuidadosa e devidamente planeada dos territórios envolventes, tendo sempre em conta as potencialidades turísticas das regiões em que as termas se inserem, bem como as suas valências;

b) Através do entendimento de que complementaridade regional significa rentabilização das diferentes sinergias dos concelhos envolventes das termas, de forma a criarem-se forças convergentes que captem turistas e termalistas, constituindo-se como espaços turísticos de excelência;

c) Pela optimização dos recursos disponíveis de tal forma que seja possível criar actividades adaptadas a espaços de lazer, e a motivações culturais e desportivas compatíveis com os territórios termais;

d) Pela valorização da riqueza patrimonial e ambiental da áreas envolventes, que devem ser valorizadas como riqueza local utilizável, de forma a contribuir para o desenvolvimento das termas e das regiões;

e) Pela aplicação de orientações específicas nas áreas do planeamento e ordenamento do território, no sentido de se clarificar o conceito de espaço termal e as formas de ocupação e arranjo das áreas envolventes.

Em síntese, a informação e reestruturação apontada pelos referidos peritos especializados assume-se como uma dinâmica de fundo, em que a complementaridade evidencia um sentido peculiar e sistémico, deambulando entre a integração e a diferenciação, numa tentativa de intervenção (re)construtiva, quer a nível interno, quer a nível externo das estâncias termais e que se procurou traduzir na figura Nº2. A complementaridade assume-se como um conceito e uma linha de orientação fundamental neste modelo, porque transversal e sempre presente nos discursos dos peritos inquiridos.

A necessidade de complementaridade evidencia-se a dois níveis: o interno e o externo. Se a nível interno se pode equacionar uma complementaridade de objectivos e de estratégias, capaz de sustentar práticas de gestão direccionadas para a multifuncionalidade, diversidade e pluralidade de estruturas, ofertas, serviços, públicos e territórios, remete também, e por outro lado, para a coexistência da especialidade, singularidade e uniformidade de estruturas, de ofertas, de serviços, de públicos e de territórios. Nesta perspectiva, poder-se-á afirmar que as categorias designadas por complementaridade de objectivos e de estratégias realçam a dimensão económica e social de eficácia, podendo observar-se nos temas que integraram as teses (3) e (4).

Ao nível externo, a possibilidade da convivência entre os conceitos de termalismo – o lúdico e o clássico. Neste contexto, a complementaridade poderá reflectir-se no fortalecimento do sector turístico, desde que interligado com as comunidades e regiões, no qual estão implantadas as estâncias termais, e se assista a uma revalorização da identidade histórica e organizacional destas estruturas, pela sintonia entre gestores e decisores. As categorias designadas por complementaridade de modelos e de culturas reflectem as dimensões sistémica e política de eficácia, podendo observar-se nos temas que integraram as teses (1), (2), (5) e (6).

 

Figura N°2
Modelo de Reestruturação Termal
 
 
Fonte: Ramos, A., 2005: 367; Ramos, A., 2007

Por outro lado, os resultados da análise descritiva do Questionário TERGAL permitiram corroborar e reforçar os resultados da análise qualitativa. Assim, os principais resultados obtidos na metodologia descritiva da 1ª parte do Questionário TERGAL, que reúne 3 instrumentos de medida distintos: Questionário VAT – Visão Actual do Termalismo; Questionário PAT – Posicionamento Adjectival do Termalismo; e Questionário FET – Funcionamento das Estâncias Termais permitiram concluir pela corroboração da hipótese 1 - os responsáveis pela oferta termal portuguesa, integrados no actual contexto de funcionamento das termas, reconhecem os diferentes constrangimentos colocados ao desenvolvimento da actividade termal em Portugal.

Neste sentido, relativamente ao QVAT, constatou-se que as pontuações auferidas nos factores constituintes foram baixas, sendo todas inferiores ao ponto intermédio da escala de medida, o que evidenciou uma perspectiva global de um certo negativismo face ao contexto termal português da actualidade (ver quadro Nº2). O referido negativismo encontra-se patente nas percepções que os participantes manifestaram face:

a) à Estruturação e condicionantes da oferta termal (pela desactualização e obsoletismo do suporte legal, focalização excessiva na doença e falta de atenção às motivações de um público plural) - Factor 2 do QVAT;

b) às Infra-estruturas (pela desactualização do património arquitectónico, precariedade das infra-estruturas dos estabelecimentos termais e carência de unidades hoteleiras adaptadas às vertentes curativa, preventiva e lúdica) e dinâmicas termais (pela subalternidade do termalismo português às subvenções da segurança social e à sazonalidade que tem caracterizado a época termal) - Factor 3 do QVAT;

c) ao Termalismo de atracção turística, saúde e bem-estar (pela necessidade do termalismo português se constituir como um destino turístico alternativo, disponibilizando uma oferta que deverá privilegiar o lazer e o bem-estar, para além da vertente curativa) - Factor 1 do QVAT;

d) à Orientação da imagem termal (patente na necessidade das estâncias termais retomarem a imagem de prestígio e de prazer de outrora - Factor 4 do QVAT.

 

Quadro N°2
Valores mínimo e máximo, pontua
ções médias, desvios e erros-padrão
do Questionário VAT e dos 4 factores constituintes

 

Visão Actual do Termalismo

Mínimo

Máximo

Média (M)

Desvio-
padrão
(DP)

Erro-
padrão
(
EP)

VAT (escala global)

1,84

3,42

2,567

0,382

0,038

Factor 1: Termalismo de atracção turística,
saúde e bem-estar

1,50

4,20

2,846

0,528

0,052

Factor 2: Estruturação e Condicionantes da
oferta termal

1,22

3,44

2,091

0,527

0,052

Factor 3: Infra-estruturas e dinâmicas termais

1,33

3,50

2,403

0,467

0,046

Factor 4: Orientação da imagem termal

1,67

4,50

2,969

0,647

0,064

 
Fonte: Ramos, A., 2005: 390

 

No que respeita ao QPAT, evidenciaram-se as baixas pontuações ao nível do Factor 3, Orientações de gestão termal devido a um modelo de gestão fortemente centrado na tradição, com fraca diversidade, interacção e plurifuncionalidade quase inexistentes e muito sustentado pela vertente curativa. Ao nível do Factor 1, Dinâmica funcional e imagem salienta-se a percepção das estâncias termais como moderadamente segregadas da comunidade envolvente, sobreviventes economicamente e necessitadas de progresso. Quanto ao Factor 2, Identidade e percepção do sector termal, em termos médios, constatou-se que os participantes oscilam em posicionar as termas com uma identidade positiva ou negativa, melancólica ou entusiasta, moderna ou obsoleta, uniformizada ou diversificada, estagnada ou em progresso (ver quadro Nº3).

 

Quadro N°3
Comparação das pontuações médias entre os factores constituintes do QPAT: testes t de
Student para amostras emparelhadas
 

QPAT - Posicionamento Adjectival do Termalismo

Diferenças emparelhadas

Médias

Desvios-
padrão

t (102)

Factores constituintes:

Pares a comparar

Factor 1: Dinâmica funcional
e imagem

Factor 1 - Factor 2

-0,028

0,596

-0,476, ns

Factor 2: Identidade e
percep
ção do sector termal

Factor 1 - Factor 3

0,557

0,771

7,330**

Factor 3: Orientações de gestão
termal

Factor 2 - Factor 3

0,585

0,808

7,350**

 
** p < .001
ns: As diferenças não atingem o limiar de significação estatística convencionado p < .05
Fonte: Ramos, A., 2005: 395

 

Em relação ao QFET, salientaram-se as elevadas pontuações ao nível do Factor 1, Desajustamentos organizacionais e funcionais sustentadas por uma imagem termal envelhecida, oferta pouco diversificada, marketing inexistente ou inadequado, centralização num público restrito, escassas capacidades de financiamento, dificuldades de reestruturação e competitividade e ainda, ligação reduzida ao trade e turismo, que nos levam a concluir pela caracterização global negativa de organização e funcionamento das estâncias. Quanto ao Factor 3, Ausência de ligação à comunidade envolvente constatou-se a necessidade de uma forte apologia de ligação às comunidades locais e de uma eficaz interacção com as estâncias termais mais próximas. Muito embora a oferta inquirida reconheça a existência de Dimensões de obstrução termal (Factor 2), considera-as superáveis, uma vez que as pontuações neste factor foram as mais reduzidas do QFET, o que traduz uma caracterização do funcionamento das estâncias menos negativa a este nível. Salienta-se a consciência perante a ausência de planos estratégicos, o menor investimento na formação, a desactualização tecnológica, dimensões de obstrução consideradas, contudo, como menos caracterizadoras do actual funcionamento das estâncias termais (ver quadro Nº4).

 

Quadro N°4
Valores mínimo e máximo, pontuações médias, desvios e erros-padrão do Questionário
FET e dos 3 factores constituintes
 

Funcionamento das Estâncias Temíais

Mínimo

Máximo

Média (M)

Desvio-
padrão
(DP)

Erro-
padrão
(EF)

QFET (escala global)

1,29

4,29

3,310

0,490

0,048

Factor 1: Desajustamentos
organizacionais e funcionais

1,21

4,32

3,528

0,549

0,054

Factor 2: Dimensões da obstrução termal

1,18

4,27

2,884

0,604

0,059

Factor 3: Ausência de ligação à
comunidade envolvente

2,00

4,50

3,447

0,495

0,049

 
Fonte: Ramos, A., 2005: 396

 

Não obstante o negativismo patente na visão actual do termalismo português, a grande maioria dos participantes considerou que proceder à reestruturação do sector termal é muito urgente (42.4%) e urgente (41.4%). 15.1% alegaram que a referida reestruturação é moderadamente urgente e apenas um participante (correspondente a 1.0% de casos válidos) indicou que é pouco urgente. Nenhum dos inquiridos referiu que a reestruturação não apresentava urgência (ver quadro Nº5). As diferenças foram estatisticamente significativas [obtive-se um Qui-quadrado da Qualidade do Ajustamento para efectivos esperados iguais e três graus de liberdade de χ2 (3) = 49.32, p < .001].

 

Quadro N°5
Distribuição da amostra em função da resposta ánecessidade de reestruturação
do sector termal: efectivos absolutos e relativos
 

Urgência de implementação da reestruturação do sector termal

Muito
urgente

Urgente

Moderadamente
urgente

Pouco
urgente

Nada
urgente

Total*

N

42

41

15

1

0

99

%

42.4

41.4

15.1

1.0

0.0

100.0

 
* Excluímos 4 casos de não resposta a esta variável, correspondente a 3.9 % de missing values.
Fonte: Ramos, A., 2005: 399

 

As principais conclusões retiradas do Questionário MAT, Motivos de Alteração do Termalismo, permitiram justificar as razões pelas quais se considera a reestruturação termal como premente. Em termos globais, constatou-se que os participantes manifestaram uma maior concordância face às proposições associadas ao Factor 1, Premissas propulsoras da revitalização termal - urgência em implementar um novo ciclo termal, dar resposta aos interesses da procura emergente, direccionar a oferta para a prevenção, lazer e bem-estar e revitalizar a identidade termal, comparativamente às do Factor 2, Factores de decadência termal - deterioração dos equipamentos, precariedade e desactualização da actividade termal, legislação em vigor desajustada e desatenção face à valorização e promoção da saúde (ver quadro Nº6). Face ao pragmatismo dos dados recolhidos, concluiu-se, assim, que os responsáveis pela oferta termal apontam para uma necessidade premente de revitalização do sector termal português (hipótese 2).

 

Quadro N°6
Valores mínimo e máximo, pontuações médias, desvios e erros-padrão do Questionário
MAT e dos 2 factores constituintes
 

Motivos de Alteração do Termalismo

Mínimo

Máximo

Média
(M)

Desvio-
padrão (DP)

Erro-padrão (EP)

Q MAT (escala global)

3,29

4,86

4,155

0,394

0,039

Factor 1: Premissas propulsoras da
revitalização termal

3,44

5,00

4,346

0,416

0,041

Factor 2: Factores de decadência
termal

2,20

4,80

3,810

0,526

0,052

 

Fonte: Ramos, A., 2005: 400

 

A análise individual dos itens constituintes de cada factor do Questionário RAT, Reestruturação da Actividade Termal (ver quadro Nº7), permitiu inferir que, em termos globais, as pontuações mais elevadas corresponderam àqueles que sustentam o princípio da complementaridade, designadamente, complementaridade de modelos, de culturas, de estratégias e de objectivos. Centrando-nos nos factores retidos no QRAT, as pontuações médias superiores dizem respeito ao Factor 3, Consequentes da reestruturação termal. Pela análise do quadro Nº8 constatou-se que as pontuações para os Factores 1 e 2 (Enfoque na vertente turística/Termoludismo e Medidas concretas para a reestruturação) não evidenciaram diferenças significativas. Assim como no Factor 3, em ambos foram encontrados resultados que nos permitiram corroborar a hipótese 3, cujo teor alude à complementaridade. Relativamente ao Factor 1, salienta-se a articulação entre o turismo e o termalismo, a introdução de serviços ligados à vertente turística e a ligação ao turismo (complementaridade de modelos), a readaptação das infra-estruturas evidenciando a sua vertente lúdico/turística (complementaridade de estratégias) e a definição de uma imagem de marca que promova uma identidade específica a cada estância termal (complementaridade de objectivos).

Quanto ao Factor 2, ressaltam as medidas concretas que apelam à complementaridade. Evidencia-se, particularmente, a complementaridade de estratégias: complementaridade entre as vertentes terapêutica e lúdica, modernização das infra-estruturas e actualização de equipamentos (complementaridade ao nível interno) e implementação de variadas actividades lúdico-desportivas e preservação e ordenamento dos espaços físicos (complementaridade ao nível externo). Face ao exposto, concluímos pela corroboração empírica da hipótese 3: os responsáveis pela revitalização termal reconhecem a complementaridade entre o termalismo curativo, preventivo e lúdico.

 

Quadro N°7
Valores mínimo e máximo, pontuações médias, desvios e erros-padrão do Questionário
RAT e dos 3 factores constituintes
 

Reestruturação da Actividade Termal

Mínimo

Máximo

Média
(M)

Desvio-
padrão (DP)

Erro-padrão (EP)

QRAT (escala global)

3,50

4,97

4,199

0,316

0,031

Factor 1: Enfoque na vertente turística/
Termoludismo

2,92

5,00

4,190

0,392

0,039

Factor 2: Medidas concretas para a
reestruturação

3,20

5,00

4,131

0,366

0,036

Factor 3: Consequentes da
reestruturação

3,63

5,00

4,297

0,382

0,038

 
Fonte: Ramos, A., 2005: 402

 

Quadro N°8
Comparagao das pontuações médias entre os factores constituintes do QRAT: testes t de
Student para amostras emparelhadas
 

QRAT - Reestruturação da
Actividade Termal

Diferenças emparelhadas

Pares a comparar

Médias

Desvios-padrão

t (102)

Factores constituintes:

Factor 1: Enfoque na vertente
turística/Termoludismo

Factor 1 - Factor 2

0,059

0,374

1,601, ns

Factor 2: Medidas concretas para a
reestruturação

Factor 1 - Factor 3

-0,107

0,354

-3,073*

Factor 3: Consequentes da
reestruturação

Factor 2 - Factor 3

-0,166

0,381

-4,426**

 
p < .01
** p < .001
ns: As diferenças não atingem o limiar de significação estatística convencionado p <.05
Fonte: Ramos, A., 2005: 403

 

Relativamente ao Questionário PAS, Programas, Actividades e Serviços, salientaram-se as pontuações mais elevadas que corresponderam a itens que preconizam o referido na hipótese 4: a nova oferta termal exaltada, privilegia a inclusão de novos equipamentos, programas, actividades e serviços, preconiza uma abertura a um público plural, consolidando globalmente o capital saúde num contexto de lazer e de bem-estar. Assim, foram os programas de boa forma física, anti-stress e circuitos turísticos programados os mais referidos pela oferta para a revitalização, seguindo-se os de beleza e estética, emagrecimento e anti-tabagismo. As pontuações mais baixas obtidas foram em programas e serviços que, embora turísticos, subalternizam o conceito de saúde, tais como casinos, comércios de luxo, salas de cinema e salas de chá (ver quadro Nº9).

Tais resultados vieram sustentar empiricamente o conceito de turista de saúde, subjacente ao conteúdo da hipótese 4. De facto, associando aos múltiplos tratamentos de cura ou prevenção diversas actividades de lazer com vista ao reequilíbrio físico e psíquico, o turista de saúde não deixa de ser um termalista. Contudo, deverá ser igualmente considerado um turista, na medida em que consome cultura, gastronomia, actividades desportivas, entre outras dimensões que consolidam globalmente o capital saúde num contexto de lazer e de bem-estar. Só assim será possível preconizar a abertura das termas a um público plural, conforme se encontra referido na hipótese 4.

 

Quadro N°9
Valores mínimo e máximo, pontuações médias, desvios e erros-padrão do Questionário
PAS e itens constituintes
 

Programas, Actividades e Serviços

Mínimo

Máximo

Média
(M)

Desvio-
padráo
(DP)

Erro-
padráo
(EP)

Q PAS (escala global)

2,15

4,90

3,70

0,459

0,05

Items

01.

Programas anti-stress

1

5

4,43

0,695

0,07

02.

Programas de boa forma física

1

5

4,45

0,696

0,07

03.

Programas anti-tabagismo

2

5

4,09

0,818

0,08

04.

Programas de emagrecimento

2

5

4,07

0,675

0,07

05.

Beleza e estética

1

5

4,07

0,718

0,07

06.

Programas de pós-parto

1

5

3,57

0,847

0,08

07.

Concertos musicais

1

5

3,30

0,873

0,09

08.

Animação de rua

1

5

3,50

0,791

0,08

09.

Circuitos turísticos programados

2

5

4,18

0,653

0,06

10.

Espectáculos diversos

2

5

3,98

0,641

0,06

11.

Salas de cinema

1

5

3,26

0,792

0,08

12.

Salas de chá

1

5

3,29

0,812

0,08

13.

Casinos

1

5

2,48

0,989

0,10

14.

Circuitos pedestres/corridas

3

5

3,91

0,643

0,06

15.

Golfe

1

5

3,66

0,774

0,08

16.

Hipismo

1

5

3,31

0,792

0,08

17.

Natação

2

5

4,03

0,760

0,07

18.

Comércio de luxo

1

5

2,57

0,836

0,08

19.

Gastronomia regional e outras
actividades gastronómicas
(mostras de vinhos, queijos,
confeitaria, etc)

2

5

3,91

0,715

0,07

20.

Actividades artesanais

2

5

3,96

0,541

0,05

 

Para concluir, o suporte empírico da hipótese 5 encontra-se repartido por dois dos instrumentos de medida constituintes do Questionário TERGAL: Questionário DRT, Dificuldades à Reestruturação Termal e Questionário ORT, Oportunidades à Reestruturação Termal. Pretendeu-se, do mesmo modo, a expor as dificuldades previstas na reestruturação da actividade termal, avaliadas pelo Questionário DRT - Dificuldades à Reestruturação Termal e seus dois factores constituintes (Dificuldades na captação de novos públicos e Dificuldades de afirmação no mercado). Da análise do quadro Nº10, conclui-se que a oferta inquirida prevê que as dificuldades sejam maiores em termos de afirmação no mercado (i.e. Dificuldades burocráticas, Dificuldades no desenvolvimento de parcerias com a comunidade envolvente, Dificuldades de captação de investimentos, Dificuldades financeiras) comparativamente às sentidas na captação de novos públicos (i.e. Dificuldades jurídico-legais, Dificuldades na operacionalização de serviços diversificados, Dificuldades de afirmação da marca “termas” em Portugal, entre outras).

 

Quadro N°10
Valores mínimo e máximo, pontuações médias, desvios e erros-padrão do Questionário
DRT e dos 2 factores constituintes
 

Dificuldades à Reestruturação Termal

Mínimo

Máximo

Média
(M)

Desvio-
padrão (DP)

Erro-
padrão
(EP)

Q DRT (escala global)

2,67

4,83

3,691

0,413

0,041

Factor 1: Dificuldades na captação de
novos públicos

2,00

4,67

3,461

0,511

0,050

Factor 2: Dificuldades de afirmação no
mercado

2,33

5,00

3,921

0,460

0,045

 
Fonte: Ramos, A., 2005: 411

 

As oportunidades previstas à reestruturação da actividade termal, foram medidas pelo Questionário ORT - Oportunidades à Reestruturação Termal e seus dois factores constituintes: Oportunidades face às novas tendências de mercado e Mais valias para o termalismo. Através dos valores apresentados no quadro Nº11 conclui-se, que a oferta inquirida prevê maiores oportunidades face às novas tendências de mercado (i.e. Oportunidades sócio-políticas, Oportunidades ligadas ao aparecimento de destinos turísticos alternativos, Oportunidades de afirmação das potencialidades termais, Oportunidades ligadas aos recursos naturais já existentes) comparativamente às mais valias que poderão trazer para o termalismo (i.e. Oportunidades de captação de investimentos, Oportunidades de investimentos ao nível do sector termal, Oportunidades estruturais – aproveitamento das infra-estruturas existentes). Em suma, os resultados recolhidos ao nível dos questionários DRT e ORT permitiram corroborar a hipótese 5: os responsáveis pela revitalização termal, não obstante as dificuldades antecipadas que poderão conduzir algumas termas à estagnação ou regressão, mantêm-se optimistas face à reestruturação, antecipando um conjunto de oportunidades à recuperação do prestígio termal de outrora.

 

Quadro N°11
Valores mínimo e máximo, pontuações médias, desvios e erros-padrão do Questionário
ORT e dos 2 factores constituintes
 

Oportunidades à Reestruturação Termal

Mínimo

Máximo

Média
(M)

Desvio-
padrão
(DP)

Erro-
padrão
(DP)

Q ORT (escala global)

2,08

5,00

4,001

0,473

0,047

Factor 1: Oportunidades face às novas
tendências de mercado

1,86

5,00

4,162

0,503

0,050

Factor 2: Mais valias para o termalismo

2,00

5,00

3,775

0,544

0,053

 
Fonte: Ramos, A., 2005: 412

 

Por outro lado, para cada uma das variáveis caracterizadoras das estâncias termais (dimensão e localização geográfica), bem como dos seus colaboradores (sexo, idade, habilitações académicas, área de formação, função desempenhada, desempenho prévio de outras funções no sector termal e respectivo tempo de desempenho dessa função) procurou-se ainda investigar a sua influência ao nível das secções constituintes do Questionário TERGAL. Contudo, os resultados aí obtidos não alteraram nenhuma das conclusões anteriores.

CONCLUSÃO

Face aos contrastes evidenciados pela maioria das estâncias termais portuguesas, francesas, bem como, dos países de civilização germânica, Alemanha, Áustria e Suíça, que consubstanciam políticas e formas de administração e gestão díspares, aplicadas em contextos diferenciadores, procurou-se analisar as diferentes perspectivas de acção que levaram a uma evolução dos fundamentos do termalismo mais moderno, permitindo enquadrar e analisar as evoluções ocorridas nos diferentes países e realidades termais, bem como, as suas políticas actuais de desenvolvimento do modelo termal. A este nível, a descrição do novo paradigma termal alemão e a sua associação a estratégias de mudança, percursoras de mais valias em termos de performance e de competitividade, constituiu um dos grandes pilares da investigação, no sentido de demonstrar que as estâncias termais são hoje um mix de serviços oferecidos, onde se consegue conciliar a diversidade de programas com o classicismo da cura termal, através da integração dum conhecimento organizacional traduzido num desenvolvimento ímpar do sector.

Neste contexto e reconhecendo a problemática da insuficiência termal portuguesa, considerou-se necessário analisar os contornos dos contextos de mudança que caracterizam o novo paradigma do termalismo em Portugal e que parecem querer sobressair na sua imagem actual. Os resultados das análises do estudo qualitativo e quantitativo permitiram chegar a um novo modelo de desenvolvimento termal, que aponta para rumos e estratégias de reconversão e de reabilitação da actividade termal portuguesa, através de uma complementaridade interna (complementaridade entre as vertentes terapêutica e lúdica, modernização das infra-estruturas e actualização de equipamentos) e de uma complementaridade ao nível externo (implementação de variadas actividades lúdico-desportivas e preservação e ordenamento dos espaços físicos), que enaltecem e apelam cada vez mais, para além da consolidação do capital saúde, à integração de programas no termalismo lúdico-turístico.

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b) Sítios Electrónicos:

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Recibido: 08/01/2008
Aprobado: 03/04/2008
Arbitrado Anónimamente

 

 

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